Osasco Antiga
História de Osasco
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A História de Osasco através de Fatos, fotos e Ilustrações

Período Pré-Colombiano

Inúmeras tribos indígenas do tronco tupi-guarani habitavam a região desde o período pré-cabralino.
Período Colonial



O primeiro núcleo de povoamento de colonizadores foi a vila de Quitaúna, fundada no século XVII.

Lá residiu o bandeirante Antônio Raposo Tavares e onde supostamente estaria enterrado.

A maioria dos historiadores supõe que ele morreu entre 1658 e 1659.

A vila de Quitaúna foi esvaziada no século XVIII com a descoberta do ouro em Minas Gerais.

Na região onde hoje se situa Osasco e em seus arredores existiam vários sítios e chácaras.

Próximo às margens do Rio Tietê, no século XIX, havia uma aldeia de pescadores e também grandes fazendas.

Uma delas foi vendida ao italiano Antonio Agu, um imigrante que começa a história da cidade.

Período Moderno
A Região No Tempo de João Pinto Ferreira


É através das escrituras lavradas em Cartórios de Notas que se pode saber quem eram os proprietários das terras osasquenses, a partir de 1880.

Falando especificamente do km 16 da Estrada de Ferro Sorocabana, podemos dizer também que a compra e venda, partilha e outros instrumentos jurídicos, começaram a aparecer em 1881. Com base nas informações colhidas nesses documentos, podemos afirmar que: no km 16 da Ferrovia Sorocabana, criava-se e engordava gado em 1880. E os animais eram vendidos para São Paulo ou Santana de Parnaíba. Além do gado, nos sítios, normalmente de 80 a 120 alqueires, eram plantados milho, mandioca e cana-de-açúcar.

Não era difícil plantar e criar em área não muito extensa e com um ou dois escravos e um engenho de farinha ou de cana. Com esses bens, conseguia-se uma renda de subsistência razoável para a sociedade da época.

História Osasco

Dr.Jaguaribe

A grande maioria dos proprietários das terras do km 16, nesse período, tinha também propriedades em outras cidades do interior. É o caso do Dr. Domingos Jose Nogueira Jaguaribe Filho (foto), proprietário do sítio Bussocaba, que plantou um bosque de eucaliptos em suas terras sáfaras e áridas, mas possuía propriedades em São Paulo.




Descritivo da foto acima: mapa mostrando as propriedades do Dr.Jaguaribe


Já a família do Dr. Fortunato José de Camargo, proprietária do sítio da Campesina, tinha cercados, pastos e plantações. Porém, seu meio de vida provinha da fazenda em Faxina onde tinha suas cabeças de gado.

Até 1890, é muito complicado saber ao certo o que tinha e o que produzia cada propriedade no km 16. Até porque as especificações da venda ou hipoteca em cada escritura varia de proprietário para proprietário, já que estes documentos eram escritos através do ditado dos interessados.

A legislação não exigia mais que a demarcação clara da localização das terras. Ou seja, as pessoas estavam mais preocupadas em especificar as divisas de suas propriedades e não os bens e meios produtivos que tinham. Para dar um exemplo mais claro, vamos especificar o corpo da escritura de compra e venda que faz Francisco Corrêa Cerpellos a João Pinto Ferreira.

"É Senhor e legal possuidor de um sítio denominado Bussucaba, com porto de campo e matas, no distrito da Freguesia da Consolação... O qual sítio confina do seguinte modo: principia no ribeirão Bussucaba e desce pelo mesmo até desaguar no Rio Tietê, pelo qual desce até onde deságua o Ribeirão João Alves, e segue por este acima até encontrar um valo, que divide com terras de Balthasar Rodrigues de Borba, a terminar na nascente de um pequeno arroio, e por este abaixo, deságua no ribeirão Bussucaba, e por este abaixo até o ponto de partida".

Essa escritura foi lavrada em 8 de outubro de 1881. Já uma outra escritura de troca entre João Pinto Ferreira e José Manuel Rodrigues é menos elucidativa ainda, quando se trata de determinar qual a parte do todo do sítio Bussucaba que se passou a chamar "Ilha de São João".

Nada é muito fácil de achar quando se esconde atrás dos véus do passado. A única coisa certa neste período eram as mudanças rápidas no km 16 da Sorocabana, tanto quanto na vizinha São Paulo. Questionando um pouco a existência desta “Ilha” dentro do sítio Bussucaba, vamos descobrir que não é de todo inviável a existência geográfica deste local, já que o bairro Rochdale é uma "ilha natural do Tietê".

O interesse de compra, venda ou permuta em qualquer lugar próximo ao rio Tietê era por causa da argila, matéria-prima das olarias. E, de fato, alguns anos depois, nesse local, surge a olaria de João Pinto Ferreira.

Foi em janeiro de 1884 que João Pinto Ferreira hipotecou a José Mariano o sítio Bussucaba. Com este dinheiro em mãos, provavelmente comprou tijolos para construir o seu forno caipira e aproveitar a argila que havia no sítio. Era uma forma de garantir a entrada de dinheiro em um dos negócios mais promissores da época: as olarias.

Para escoar a sua produção, haviam as barcas, que navegavam no Tietê. Podia também transportar de carroça pela estrada providencial São Paulo-Itú, atual avenida dos Autonomistas. Ou ainda construir uma plataforma para carregar sua produção em trens, o que, na época, era mais rápido e seguro.

Acertar ou não em um determinado negócio é uma questão de experiência, neste ou naquele ramo. E João Pinto Ferreira era um comerciante de secos e molhados, não oleiro ou empreiteiro. Ainda assim, um empresário que investiu bastante no sítio "Ilha de São João" nos seis anos em que foi proprietário. Muito provavelmente vendeu o sítio por causa das dívidas.

Quando o sítio "Ilha de São João" foi vendido tinha: uma olaria, um moinho de farinha, gado, videiras, banana, um pórtico à margem da estrada de ferro, muitas ferramentas para trabalhar com a terra e muito gado perdido pelo meio do mato. Coisas que João Pinto Ferreira não comprou de Francisco Corrêa Cerpellos, mas vendeu para o italiano Antônio Agu junto com o sítio.



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Antônio Agu Antes de Osasco

Nasceu em 25 de outubro de 1845, às nove 9 horas, em Osasco, Itália.

Filho primogênito dos lavradores Antônio Giuseppe de Pietro Agu e Domênica Vianco.

Batizado por seu tio Dom Michele Vianco, recebeu o nome de Antônio Giuseppe Agu.

Emigrou para o Brasil em 1872 com 27 anos de idade e trabalhou na construção do Engenho Central de Capivari, cidade do interior da Província de São Paulo.

Faleceu aos 64 anos de idade no dia 25 de Janeiro de 1909

Reconhecido por seus empregados, parentes e amigos, o cortejo do corpo de Antonio Agù foi acompanhado por centenas de pessoas desde a vila que fundou até Cemitério da Consolação, no centro de São Paulo, onde foi enterrado.

Não deve ter tido uma infância ou adolescência difícil, pois a crise econômica italiana principiou quando por ocasião do casamento de Antônio Agu com Teresa Maria Benvenutta Chiaretta, isto é, em 1870.

Dois anos após casar Antonio Agú desquito-se de sua mulher legalmente na Itália.

Dessa união, nasceu a menina Primitiva Domênica Michela Agu, em 22 de julho de 1872. Conforme informações contidas no histórico da Cúria Metropolitana da Cidade de Osasco, na Itália, foi nesse mesmo ano que Antônio Agu migrou para o Brasil.

Muitas foram as razões que trouxeram os italianos para as Américas. A Itália se unificou em 1870, e foi resultante desse processo político social as causas para migrar. "O confisco de propriedades por falta de pagamento de impostos, esgotamento da terra, relações pessoais entre trabalhadores e proprietários, crise agrícola, desflorestamento, política comercial, proteção a navegação e crise de disponibilidade alimentícia".

O Brasil dessa mesma época tinha outras crises: falta de braços para substituir o trabalho escravo que, após o término do tráfego negreiro e a guerra do Paraguai, tornaram-se escassos, e falta de mão-de-obra qualificada para trabalhar na indústria nascente.

As fronteiras do café se alargavam para o oeste paulista e os braços para tocar as plantações minguavam. Assim, a saída mais viável era a substituição do braço escravo pelo assalariado.

Antônio Agu veio para o Brasil no mesmo ano do nascimento de sua filha, e começou a trabalhar na construção da Estrada de Ferro na cidade de São João do Capivari, interior de São Paulo. Foi um dos muitos que prosperaram graças às suas terras roxas.

Assim, a troca de seu meio de produção não o tornou totalmente industrial, mas ajudou o município a prosperar e seguir a evolução dos tempos.

"Neste ano de 1881, a lavoura de café em São João do Capivari está começando, e para proteger esta lavoura das possíveis geadas os terrenos baixos não são cultivados, ali são deixados revestidos de mato virgem abundante e com árvores de preciosa madeira. O único rio que atravessa o município é o Capivari. Os demais riachos e ribeirões servem para irrigar a lavoura. A maior parte da terra roxa ainda deixa espaço para que as terras menos nobres, como as que se extrai argila, os barreiros, o calcário e a brita coabitem em seu espaço..."

Com tanta riqueza, o povoado não tardou em virar freguesia, e desta a condição de cidade foram apenas 44 anos de trabalho. Ou seja, Capivari tornou-se cidade em 22 de abril de 1864.

Ainda em relação a esse progresso, é preciso somar a chegada da estrada de ferro, em 21 de outubro de 1875, e o engenho central, que começou a ser construído em 1881.

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Estação Sorocabana Capivari

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Com sede em Paris - França e filial em São Paulo,
capital, a antiga Usina São Paulo-SA,
foi o 1º engenho central instalado
em Capivari







Descritivo da foto acima: Rafard, a cidade que se desenvolveu no entorno da usina central de Capivari



Como se pode observar, esta cidade carecia de mão-de-obra especializada e não podia parar seus largos passos em direção ao novo século só pela falta de escravos. Além disso, escravos trabalhavam bem na lavoura, mas não eram hábeis no uso da máquina a vapor para o beneficiamento de grãos de café, algodão, milho e arroz. Também não tinham prática em usar máquina para formatar telhas e tijolos nas olarias. A tecnologia estava ao alcance de qualquer agricultor e, caso quisesse veículos, máquinas e instrumentos para a sua lavoura, era só pedir ao mecânico Henrique de Araújo que ele fabricava em sua ferraria - muito bem montada no centro de São João do Capivari. Eram todos esses avisos de novos tempos, de desenvolvimento, que nem ao menos a cidade de São Paulo tinha, e Antônio Agu residindo nesta cidade do século XX.

A narrativa serve para explicar, documentalmente, que o progresso que Antônio Agu daria às suas terras, no km 16 da Sorocabana em São Paulo, nada tem a ver com Osasco, Itália. Mas sim, com São João de Capivari, onde viveu os seus primeiros 14 anos no Brasil.

A Itália que Antônio Agu deixou para trás não prometia nada a seus filhos e também não tinha nada a oferecer para o futuro próximo.

Em relação ao dinheiro para comprar a olaria de João Pinto Ferreira e depois o sítio, também são provenientes da construção do Engenho Central de Capivari.

Antônio Agu já tinha uma propriedade na cidade de São João de Capivari, quando resolveu se estabelecer em São Paulo.

Esta resolução pode ter sido tomada por muitas razões. Mas, entre elas, certamente está o ideal de realizar o sonho de construir um bairro.

São Paulo começava sua metamorfose de cidade para a megalópole que hoje conhecemos. Muito provavelmente, Antônio Agu, que em 1887 tinha 42 anos, já havia aprendido, economizado e amadurecido seus ideais. Era tempo de novos rumos, de novas buscas. E ele não foi o único nem o primeiro dos italianos que se mudou para a cidade de São Paulo, onde a população italiana passou, entre 1872 e 1886, de 8% para 25% do total de habitantes.

São Paulo deixava de ser apenas o pólo político da província para se tornar também uma cidade desenvolvida, economicamente vibrante, dinâmica e impaciente.

Os braços italianos invadiam os meios de produção. Pequenos comerciantes, artesões, operários, têxteis, engraxates, vendedores ambulantes e oleiros. A cidade já tinha fábricas de tecidos, calçados, gêneros alimentícios e olarias. O panorama urbano era rápido e vertiginosamente mudado. Faltava moradia para a população que, em 1886, era de 8.269 pessoas, e em 1890, passou para 13.337 só no distrito da Consolação.

Os apelos de mudanças não eram poucos, e maiores eram os atrativos para sair de São João do Capivari e vir para São Paulo.

No km 16 da Ferrovia Sorocabana, o desenvolvimento das olarias também caminhava em ritmo de São Paulo. Já existiam as olarias de Delfino Cerqueira, João Pinto Ferreira e João Brito (Olaria São João). Até a de José Manuel Rodrigues estava instalada no ano de 1887.

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Olaria São João que ficava no final da R. Andre Rovai

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Foto de uma antiga Olaria em Osasco



É interessante observar o comentário de Alice Canabrava em seus estudos sobre as chácaras paulistanas: "(...) encontra-se também a atividade agrícola ligada a uma produção industrial baseada no solo, a fabricação de telhas e tijolos. Nessas chácaras, a olaria encontra-se associada ao pomar de árvores frutíferas em geral, e até há videira, para a fabricação de vinho (...)". E a propriedade comprada por Antônio Agu tinha exatamente o perfil de chácara paulistana definida por Alice Canabrava. A raridade está no fato de o sítio "Ilha de São João" ter sido a primeira propriedade da região do km 16 vendida a um italiano. Aliás, por um bom tempo, até 1902, este foi o único sítio que passou de mãos brasileiras para de estrangeiros.

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Alice P. Canabrava

Alice Piffer Canabrava foi uma historiadora brasileira. Foi autora de uma das primeiras pesquisas tipicamente acadêmicas da área de História Econômica no Brasil, fundadora de uma revista especializada e de uma das principais agremiações da classe.


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Antônio Agu no Km 16 da Estrada de Ferro Sorocabana

Como havia feito com José Manuel Rodrigues, João Pinto Ferreira não vendeu toda a propriedade para Antônio Agu. A primeira venda foi em junho de 1887 e dela constam: "(...) casas, ranchos, forno, bem como demais terrenos dentro dos limites (...)".

Nessa venda, é importante observar que existe no corpo da escritura a definição do que foi vendido - ao contrário das duas escrituras anteriores de João Pinto Ferreira. Outra observação interessante, está nos limites: "Frente para a linha férrea Sorocabana. Começa no córrego Boy-ssicaba até o rio Tietê, e de aí até a vertente Bagreira, e por ele acima até os terrenos de Manuel José Rodrigues, e por este até o Boy-ssicaba".

O nome do córrego Bussocaba, bem como o nome da propriedade, variava de escritura para escritura. Tudo dependia de como era ditado o documento para quem escrevia. Assim, é por dedução que se chega à conclusão de que a área que compunha a venda da olaria era atualmente: de frente da estação ferroviária de Osasco, rua André Rovai até o córrego Bussocaba; avenida Maria Campos, descendo o córrego Bussocaba até o rio Tietê. Desse ponto, segue até onde hoje está a rua Manuel Rodrigues e sobe até a rua André Rovai, e dessa rua até o córrego Bussocaba, o ponto inicial.

A vertente Bagreira está canalizada, começando nas proximidades do Mercado Municipal até o Tietê, passando pela linha férrea e seguindo quase paralela à rua Manuel Rodrigues. Há, no entanto, mapas que citam esta vertente como sendo o córrego João Alves. Preferimos a primeira hipótese, já que não sabemos a localização exata da "Ilha" que João Pinto Ferreira trocou com Manuel José Rodrigues. O que se pode afirmar com certeza é que a divisa entre as duas propriedades está onde hoje temos a rua Manuel Rodrigues, no bairro de Presidente Altino.

Nessa escritura também ficou estabelecido entre vendedor e comprador que: "O comprador fica com o direito de tramitar e fazer tramitar seus empregados a partir da dita olaria, entendido por terras incultas dos vendedores até a estrada geral de rodagem que segue para Itú, devendo ficar salvas as terras lavradias dos vendedores, bem como a estrada particular destes, que fica em frente a dita olaria até o sítio que lhes pertence, denominado "Ilha de São João", estrada esta que só poderá ser utilizada pelo comprador, seus filhos e empregados em caso de força maior".



Pela força da proibição de não passar pela estrada particular dos moradores do Sítio "Ilha de São João", deduzimos que a rua que hoje conhecemos como Primitiva Vianco já existia. E que, para ter acesso à estrada de rodagem e não destruir as terras cultivadas pelo proprietário, muito provavelmente Antônio Agu tivesse, nesse primeiro momento, aberto a sua estrada que seria a atual rua Antônio Agu.

Uma segunda cláusula importante é aquela em que toda a responsabilidade sobre o pórtico, que ficava em frente à olaria, passou para Antônio Agu. No entanto, João Pinto Ferreira ficava com o direito de enviar e receber mercadorias e tudo o mais relativo ao sítio, nesse mesmo pórtico. Caso o comprador quisesse melhorar ou aumentar este acesso ao transporte ferroviário, os vendedores teriam garantido o direito de receber e enviar mercadorias.

É importante que se saiba que poucas são as escrituras, pelo menos dos cinco primeiros cartórios de notas de São Paulo, que têm a definição de bens, terras e utensílios claramente descritas como as desta escritura.

A revolução industrial na Europa já tinha mais de um século, e o Brasil, ainda lutava para mostrar a sua tradicional classe de latifundiários, que o processo industrial, além de viável, era o caminho para o próximo século (XX).

Não era pensamento de todos os agricultores latifundiários que o futuro produtivo estava na indústria. Por isso, nesse período, muitos brasileiros construíram fabriquetas e terminaram por vendê-las aos estrangeiros.

Sete meses após a venda da olaria, o Sítio "Ilha de São João" foi vendido ao mesmo comprador. Nessa escritura, foi revelada a razão que levou João Pinto Ferreira a vender todos os seus bens do km 16 da Sorocabana em menos de um ano. No texto desse documento, ficou quitada a hipoteca do vendedor com José Mariano. Ou seja, entre 1884 e 1888, os investimentos de João Pinto Ferreira não deram o retorno esperado e terminaram ocasionando a venda de tudo.

Antônio Agu adquiriu, com a compra do Sítio "Ilha de São João": "um vinhedo com cerca de trinta mil pés de vinha, algumas centenas de uvas, árvores frutíferas, bambús, grande plantação de bananeiras, uma casa à margem da estrada de rodagem, ranchos pintados, casa em frente à dita casa da fábrica de farinha, com engenho movido à água, suas provisões e mais outras casas em diversos pontos".

Limites das terras adquiridas: "(...) Tomando-se a linha férrea Sorocabana do km 16, seguindo o arroio Boy-cicaba acima, até encontrar o valo que divide com terras e campos do Dr. Domingos José Nogueira Jaguaribe Filho e por esse valo acima até o arroio João Alves, e por este arroio abaixo até a linha férrea Sorocabana, aproximadamente no km 18, e aí pela mesma linha, até encontrar de novo o arroio Boy-cicaba".

A medida citada na escritura é um tanto relativa, pois, naquela época, ninguém mandava medir os sítios para vender ou comprar. E mesmo em alqueires, teríamos que saber ao certo onde estava o valo do doutor Jaguaribe para dizer "é aqui ou ali". Além disso, nessa época, as pessoas também entravam em juízo, reivindicando pequenos trechos ou valos mais para cima ou mais para baixo. Foi o que aconteceu entre o Antônio Agu e o doutor Jaguaribe. Assim, chegamos à conclusão que o valo deveria ser onde hoje fica o entroncamento das ruas Narciso Sturlini, Analice Sakatauskas e avenida Bussocaba, e deste ponto em linha reta até córrego João Alves. Desta forma, os bairros que se originaram do Sítio "Ilha de São João" são: Centro, Jardim Agu, Vila Granada e Bela Vista.





Descritivo da foto acima: Mapa mostra o "Sitio de São João - Vila Osasco" entre 1887 e 1894





A escritura pública de 1888 dá a medida de 236 alqueires. Esse mesmo documento estabelece que ficam pertencendo ao comprador "(...) os moares, utensílios de lavoura, gado constante de dezessete bois mansos de carro, incluindo alguns fugitivos, cinco vacas e terneiros, cinco animais cavalares, isto é, duas bestas, um cavalo, duas éguas, três carros de boi, uma carroça".

Pelo volume adquirido, podemos deduzir que Antônio Agu empregou bem os seus três contos de réis. Mas nada disso iria fazer com que nascesse Osasco, se não fosse a sua determinação, trabalho, perspicácia empresarial e o tino comercial para aproveitar as profundas transformações sócio-políticas e econômicas que o Brasil passou a viver entre 1888 e 1900.





Descritivo da foto acima: Antonio Agu em sua residência com familiares e amigos - Casa de Antonio Agu que ficava na atual av dos Autonomistas - hoje no local existe uma vila de casas







Descritivo da foto acima: Imigrantes italianos no sítio de Antonio Agu







Descritivo da foto acima: Imigrantes italianos na casa de Antonio Agu







Descritivo da foto acima: Cocheira de Antonio Agu - ficava na atual esquina da Av. dos Autonomistas com a Salem Bechara onde hoje esta o prédio da Caixa Economica.







Descritivo da foto acima: Curtume de Antonio Agu







Descritivo da foto acima: Curtume de Antonio Agu, do livro Brasile e Gli Italiani, publicado em 1906. Em 1909 já estava completamente desativado







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Propriedade Jurídica da Terra


No período colonial, as terras eram dadas por reis portugueses - com base na solicitação dos que já há muito tempo ocupavam as terras requeridas. Só para ilustrar, podemos citar as terras de Afonso Sardinha próximas ao Morro do Jaraguá. Já havia a exploração de ouro nas terras do Jaraguá quando Afonso Sardinha solicitou do rei de Portugal o documento que dava a ele posse jurídica das terras, "sesmarias".

No tempo das capitanias hereditárias, os donatários passaram a ter poder de dar terras, "sesmar". Isto é, os donatários podiam ditar aos tabeliães das notas uma escritura de "dada de terras", nas quais cediam determinado espaço de terra para que o "colono" cultivasse. Em seguida, veio o poder das Câmaras Municipais de dar terras dentro de um determinado perímetro ao redor do núcleo principal (3 km) da vila, no sentido de fixar um maior número de moradores. Aliado a todas essas primeiras divisões, estavam o que podemos considerar uma subdivisão originária dos inventários e testamentos que dividiam, normalmente em partes menores, as propriedades herdadas.

Independente da forma jurídica como as terras eram passadas a seus proprietários, a compra, venda e a partilha de algumas heranças tinham escritura pública lavrada por um tabelião das notas.

Por quase trezentos anos, essas divisões ficaram sem controle, ou com duplo controle, ora da igreja, ora dos juízes ordinários. Ou seja, os registros de propriedade das terras eram feitos pela igreja ou, no caso de herança, pelos tabeliães do judicial. Por último, quando a vida no país requeria um certo controle, o rei D. João VI resolveu cobrar impostos pela compra e venda de terras dos proprietários. E principalmente para que houvesse controle seguro no caso de empréstimos financeiros entre pessoas e, por isso, surgiram os registros de hipotecas.

A oficialização dos registros de hipotecas nasceu em 1860. Nos livros desses registros ficavam anotados desde escravos até os animais, que se davam como garantia de devolução do dinheiro tomado emprestado. Nesse período, o que mais valia era a peça escrava. As terras eram um acessório quase sem valor monetário.

Os registros de imóveis como hoje conhecemos datam de 1890. Os cartórios de registro nasceram de uma transformação social, política e financeira - mas fundamentaram sua maneira de registrar as propriedades nos registros de hipotecas.

A diferença mais importante entre o registro de imóvel e o registro hipoteca está no número que uma propriedade recebia ao ser registrada no cartório. Com base nesse primeiro número, todas as transformações e divisões ocorridas naquele espaço de terras considerado original poderia ser rastreado através dos tempos.

Assim, quem estuda formas jurídicas de propriedade de terras no Brasil de hoje, precisa estudar "Dadas de Terras", "Sesmarias", "Inventários e Testamentos", bem como escrituras públicas de diversos cartórios de notas, para afirmar ser aquela propriedade desta ou daquela pessoa em qualquer tempo. Não existe, em qualquer tempo da história brasileira, propriedade de terra sem que haja um documento para confirmar a posse.

Toda essa explicação serve para que as pessoas entendam que não é muito fácil aos historiadores de hoje encontrar de fato e de direito os proprietários das terras de séculos anteriores ao século XIX. E, muitas vezes, as exigências da lei na lavratura do documento notarial, o mais antigo dentre os documentos de terras, não exigiam muitas minúcias na descrição da terra e de suas divisas. Isso fez com que seja mais difícil afirmar, por exemplo que as terras do Sítio do Quitaúna foram de Antônio Raposo Tavares. Mas viabiliza também que se afirme que em 1903, este sítio pertencia a José Mariano de Brito, ainda que estivesse nas divisas do Sítio Carapicuíba - que passou a pertencer a Delfino Cerqueira conforme podemos constatar no documento abaixo escritura de compra e venda de parte do sitio Quitauna.

Titulo: Contrato de compra e venda de parte do Sitio Quitauna
Descritivo:
Autoria:
Local:
Série: Osasco Antiga
Data: 16-04-1910
Foto nº 013

Titulo: Contrato de compra e venda de parte do Sitio Quitauna
Descritivo:
Autoria:
Local:
Série: Osasco Antiga
Data: 16-04-1910
Foto nº 014

Titulo: Contrato de compra e venda de parte do Sitio Quitauna
Descritivo:
Autoria:
Local:
Série: Osasco Antiga
Data: 16-04-1910
Foto nº 015



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Vizinhos de Antônio Agu Entre 1887 e 1909


Os sítios e os vizinhos de Antônio Agu eram:

Zona Norte - Sítio do Mutinga: com 200 alqueires até 1880, quando foi dividido entre herdeiros; Sítio Taipas, que mais tarde foi vendido à baronesa de Limeira; Sítio Velho Funchal, atual Sítio Paiva Ramos; Sítio do Barreiro: com área que fazia divisa entre os municípios de Osasco e Barueri. Todos esses sítios só tiveram ocupação urbana a partir de 1950/60.

Zona Sul - Sítio da Campesina: de propriedade de Fortunato de Camargo; Sítio Jaguaribe: pertencente ao médico, político e intelectual Domingos José Jaguaribe Filho, dono também de vasta porção de terras em Campos do Jordão; Fazenda Carapicuiba: que foi comprada de Licínio de Camargo por Delfino Cerqueira, através de empréstimo fornecido pelo banco onde João Brícola, banqueiro e amigo de Antônio Agu, era o presidente. Delfino adquiriu esta fazenda dos herdeiros de Licínio de Camargo, que, por sua vez, adquiriu estas mesmas terras de Antônio e Veridiana Prado.

O Sítio do Quitaúna: nesse período, era de propriedade de José Mariano Brito, e seu inventário terminou em uma grande briga pela demarcação das terras entre os herdeiros. O vizinho, Coronel Delfino Cerqueira, terminou vendendo a área para o Exército, que construiu o Quartel de Quitaúna. Também eram vizinhos de Antônio Agu o Sítio do Rio Pequeno: que deu origem ao bairro de Presidente Altino, loteado pela Cerâmica Industrial Osasco, em 1920; Sítio do Dr. Lane, antigo Ernesto Kramer: que ficava mais ao sul, próximo ao atual Jardim D,Abril.

Cada um destes sítios deu origem a mais de um bairro dos tantos que compõem hoje a cidade de Osasco. Os fatores que dificultaram o loteamento destes sítios para fins urbanos não se limitam à falta de vontade dos proprietários em dividir suas terras, mas também ao pouco interesse imobiliário por elas.


Mapa mostra os visinhos de Antonio Agu em 1900

clique no mapa para ver em tamanho grande.

mapa_vizinhos_agu.jpg


A população de Osasco atravessou a década de 40 com 15.258 habitantes. Na década seguinte, passou a ter 43.473, e foi este estouro populacional que desencadeou o processo de loteamento dos sítios vizinhos ao do fundador da "vila". Outro fator relevante para a demora na ocupação urbana dos 64km de área do atual município, está na topografia e na hidrografia destes sítios.



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A Agricultura nas Terras de Antônio Agu


O fato do fundador ter comprado terras que não eram pródigas como as terras roxas de Capivari não significou deixar de plantar. A quantidade de vinhas e árvores frutíferas que passou a ter em suas terras provam isso. Mas onde eram plantadas essas parreiras e árvores frutíferas?

Para começar a entender, devemos lembrar que o solo de Osasco é composto em sua grande maioria de argila, areia e planícies aluvionais, ou seja, em termos de agricultura, estamos diante de solo pobre para cultura de café e cana-de-açúcar. Com isso, estamos explicando porque a agricultura e a pecuária não deram certo nas terras de Osasco.

A plantação não podia ser muito longe da casa de moradia do sítio, que, como já vimos, ficava próximo da rua Particular (atual Primitiva Vianco) com a estrada de rodagem São Paulo-Itú (atual avenida dos Autonomistas). Assim, as plantações ficavam no atual Jardim Agu, onde as águas do córrego Bussocaba, na cheia, molhavam e traziam seus restos orgânicos para adubar. Por causa dessa plantação, ficou proibido, em contrato, que a fábrica de papel represasse as águas do córrego Bussocaba abaixo da estrada de rodagem.

As plantações não se estendiam por todo o centro de Osasco que hoje conhecemos, porque boa parte dessa região era, na verdade, um grande brejo - parte das planícies aluvionais do rio Tietê que seguem em direção a atual avenida Marechal Rondon.

A ocupação urbana é que foi empurrando o rio para o restrito leito que hoje conhecemos. No período de Antônio Agu, no entanto, essa questão do brejo no largo e no centro de Osasco era tão grave que o fundador da vila resolveu plantar eucaliptos para drenar um pouco a enorme quantidade de água que ficava empoçada no período das chuvas.



Primórdios da atual rua Primitiva Vianco (foto década de 30).

 

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Primórdios da atual Rua Antonio Agú (foto final dos anos 20 início dos 30)




Os eucaliptos foram plantados na rua Primitiva Vianco e alguns na rua Antônio Agu e João Batista. Assim, parece-nos importante provar que o município, a vila ou o distrito de Osasco não apresentavam, em nenhum momento de sua história, vocação para outra natureza de ocupação que não fosse o urbano industrial.



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As Agro-Indústrias do Fundador


As vinhas das terras da "Ilha de São João" existiram por muito tempo. Entre 1885 e 1916, pelo menos. Mas entre plantar parreiras e ter uma produção de vinhos e licores, existe uma larga distância no processo produtivo.

Em 1896, Antônio Agu arrenda a Antônio Duquenoy a fábrica de vinhos e licores que construiu em terras vizinhas às da Cerâmica Industrial. O prédio, que deveria abrigar os maquinismos da fábrica de licores e vinhos, não estava concluído e o arrendamento já estava feito. Um terreno de cinco metros de frente e 24 de fundos. Nele, estavam sendo construídos quatro quartos, para a moradia de empregados, e o resto do espaço ficou reservado para a instalação de três tinas cobertas, filtros com seus pertences e uma prensa mecânica para a fabricação de vinho.

Duzentos Réis foi o valor do aluguel cobrado pelo fundador de seu arrendatário. E toda a produção de uvas retiradas das parreiras do locador ia para a fábrica de vinhos de Antônio Duquenoy. O preço das uvas, a ser pago pelo arrendador, era o do mercado do domingo seguinte e de comum acordo entre locador e locatário. Caso houvesse divergência de valor, o preço seria determinado por dois árbitros vizinhos, também plantadores de uva.

O preço da uva, no entanto, seria pago em dinheiro, a cada quinze dias. Esse primeiro contrato vigorou até 1898.

Em 1906, Antônio Agu arrendou as videiras para Nunciante Piccagli. Nesse segundo momento, o prazo de validade era de 10 anos. O aluguel era de pagamento anual no valor de três contos de réis e não implicava apenas nas vinhas, mas, também, na cultura de amoras, pereiras e outras árvores frutíferas.

O locador podia tirar as folhas das amoreiras apenas uma vez por ano e negociá-las a preço de mercado. Devido à proximidade entre a área arrendada e a moradia do locador, ficou estabelecido nesse mesmo contrato que era proibido a realização de jogos de bola nas ruas principais das plantações de árvores frutíferas.

Aliás, são as alamedas das plantações de árvores frutíferas na Chácara Agu (bairro que hoje tem o nome de Jardim Agu) que dão a simetria das ruas do bairro.

Outra particularidade do contrato que denota a mudança dos tempos, ou pelo menos mudança na forma de negociar do fundador, é a presença do fiador Sixto Rangini.

As indústrias que trabalhavam com produtos cultivados tinham mais simpatia dos congressistas da época do que as de bens de consumo. Isto fez com que a indústria agrícola tivesse subsídios fiscais antes de qualquer outro ramo industrial.



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Moradias da Estação de Osasco


A ocupação urbana surge em Osasco após a construção da estação ferroviária. Isso não significa que antes da construção da estação não houvesse casas e moradores.

Como foi escrito anteriormente, o Sítio "Ilha de São João" tinha casas espalhadas nos seus limites. Mas ocupação urbana pressupõe ordenamento de ruas, moradias organizadas dentro de um determinado espaço, comércio, serviços e indústrias. E some-se a essas a principal característica, que é a compra de pequenos lotes de terra por diversas pessoas.

Todas as propriedades do km 16 da Ferrovia Sorocabana eram sítios. E o primeiro sítio a tomar rumo em direção à formação urbana foi o de Antônio Agu - ou seja, o Sítio "Ilha de São João".

A primeira característica da formação urbana da "Vila" foi através das vilas operárias. Aliás, Osasco tem 70 dos seus 100 anos como subúrbio industrial e operário. Com isso, o leitor deve entender que o simples fato de ter Osasco se emancipado de São Paulo não significou troca radical na sua formação humana, econômica, social e cultural.

Se hoje a cidade tem grandes indústrias metal-mecânica e multi-nacionais de diversos ramos, respeitando as diferenças tecnológicas das nove décadas que separam o início da "Vila" dos dias atuais, o mesmo aconteceu no início do povoamento, quando havia três grandes indústrias. Uma delas, a Fábrica Tecidos Enrico Dell"Áqua, tornou-se uma multi-nacional em 1899.

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Fábrica Tecidos Enrico Dell"Áqua

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Fábrica Tecidos Enrico Dell"Áqua

 
Na foto abaixo morou o gerente da Fábrica de tecido Dell Acqua. Esta casa ficava de fronte a fabrica de tecido.
No final dos anos 30 inicio dos 40 esta casa foi adquirida pelo meu avo o Sr. Hagop Koulkdjian que passou a residir com a familia que saia de Presidente Altino - Aí montou o primeiro estúdio fotográfico de Osasco o "Foto SiS"
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Esta residência ficava na atual Rua Antonio Agu, esquina com a República do Libano
Hoje no local esta o Centro de Ofertas.
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Na foto acima a cocheira que fazia parte do conjundo da residência que à época era residência da familia Ferre.
 
A data é 1900, pode-se ver a familia Ferre inteira: Dona Cristina, de vestido preto, Serena em frente dela, Ercole seu esposo, Fábio e José na bicicleta e no cavalo Graziela Ferre. A cocheira foi mais tarde a antiga Livraria Siciliano. Essa foto foi tirada a partir do terreno da fábrica de tecidos e dá para ver perfeitamente a cerca da mesma



Na foto abaixo a mesma residência no ano de 1921 vista lateral. Esta é a atual Rua República do Libano

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Residência Família Ferre


A grande maioria dos pequenos proprietários dos lotes adquiridos de Antônio Agu o faziam para ter um pedaço de terra para moradia. Outros investiam em instalação de pequenas fábricas, como foi o caso da fábrica de massas dos Irmãos Gianetti & Cia. Já para o banqueiro Giovanni Brícola, no entanto, comprar terras em Osasco era uma forma de investir.

Giovanni Brícola deixou de ser cidadão italiano em 1888, quando se naturalizou brasileiro. Em 1900, tornou-se representante do Banco Nápoles em São Paulo e, com isso, conseguiu formar uma respeitável fortuna. Dentre os bens deixados pelo banqueiro, estão o sítio, casa que atualmente abriga o Museu de Osasco, e os lotes adquiridos tanto de Antônio Agu como de outros italianos que quiseram sair do Brasil ou dividir suas heranças, como ocorreu com os herdeiros de Marco de Capri.


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Residência que pertenceu a Marco de Capri, João Briccola, Afonso Carpentieri entre outros. Ficava na R. Dona Primitiva Vianco, onde encontra-se hoje o edifício Marrey Junior. Também foi a primeira sede da Prefeitura de Osasco durante 8 meses



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O Chalé Bricola, casa que atualmente abriga o Museu de Osasco.



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O Chalé Bricola, casa que atualmente abriga o Museu de Osasco.


Uma característica marcante desse período, em relação à nacionalidade dos proprietários dos lotes da estação de Osasco, é que 99% eram italianos. É claro que isso tem uma série de razões, mas a facilidade de pagamento e a proximidade do trabalho eram os principais fatores para que as famílias se fixassem nestas terras.

Entre 1898 e 1899, foi o período do maior número de escrituras de compra e venda. Foi como se todos tivessem terminado de pagar seus lotes naqueles dois anos.

Uma das características desses lotes que a cidade de Osasco, em sua divisão urbana central, carrega ainda hoje são as quadras e ruas irregulares. Isso ocorre porque, na época, o centro de Osasco era um enorme alagado. E essa condição natural fazia com que os moradores escolhessem lugares menos encharcados para construir suas casas. No escolhe daqui, afasta dalí, os lotes ficaram irregulares em suas formas geométricas.

Não havia projeto de loteamento antes da venda ou da construção da moradia. Primeiro se fazia a casa, depois é que se media e demarcava o lote.

O único mapa de uma proposta de loteamento foi feito pelo arquiteto Júlio Saltini, entre 1907 ou 1908. Mas isso nunca chegou a ser colocado em prática.

A falta de planejamento urbano atrapalhou apenas a simetria dos lotes, mas não a preocupação de ter calçadas, de definir e nomear ruas, avenidas e largos. As calçadas tinham dois metros de largura. As ruas Primitiva Vianco, Antônio Agu e João Batista já existiam e iam do Largo da Estação até a estrada Provincial São Paulo-Itú, o que ainda hoje empresta à cidade a idéia de que no largo da Estação, está o Arco do Triunfo, como em Paris, só que em Osasco o triunfo ficou com os imigrantes que conseguiram se estabelecer, progredir, criar raízes.

Houve também quem ganhasse o seu pedacinho de chão num sorteio do jornal O Fanfulla. É o caso de Antônio Duva, que ganhou um terreno com frente para a rua da Estação (10m de frente e 50m de fundos), tendo Pedro e José Micheli como vizinhos de um lado, e Antônio Agu de outro.

A baixa densidade populacional da estação de Osasco em seus anos de fundação viabilizavam um espaço maior de terras por proprietário. Mas isso não quer dizer, no entanto, que todos os lotes tivessem 500m² de área. Pelo contrário, uma boa parte dos habitantes da Vila Osasco viviam nas vilas operárias, construídas pelas fábricas onde trabalhavam. Possuir um terreno e ter uma casa, mesmo naquele tempo, era uma conquista econômica e social.

Foi a partir da catástrofe da febre amarela, que visitou São Paulo em 1892, que as vilas operárias passaram a ter normas técnicas para a sua construção. Como Osasco passou a ter vilas após 1895 (e nesse período a parte das terras da Vila Osasco integravam o distrito paulistano da Consolação), o que era lei para São Paulo também valia para a vila.

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Theodoro F. Sampaio

Theodoro F. Sampaio

Para entender como eram as vilas operárias, nos servimos do relatório de Theodoro Sampaio enviado à Câmara Municipal e transformado em lei em 1893.

"Quanto ao solo: deve ser bem enxuto, fazendo-lhe a drenagem prévia e se regularizando convenientemente. Quanto ao esgoto: deve ser preferido de circulação contínua, o sistema de "tout a l’egout", fazendo-se, para esse fim, uma rede especial para a vila, se esta ficar além dos limites da cidade, ou ligando-a à rede urbana existente, se ficar intramuros".

Como já foi dito, Osasco era um subúrbio operário, logo, sem acesso a qualquer natureza de esgoto ou tratamento de água. "Quanto ao abastecimento de água, empregar-se-á sempre água canalizada, utilizando-se sempre de um manancial vizinho, o qual deverá influir muito sobre a escolha do local para a vila".

Em São Paulo, as habitações operárias não estavam necessariamente ligadas a determinada indústria, como acontecia em Osasco. A do Frigorífico Continental era a mais bonita e organizada, e também com melhores condições de higiene. A mais precária era a da Cerâmica Industrial Osasco ou Sensaud de Lavaud & Cia. (foto abaixo)


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Vila operária da Cia. Cerâmica Industrial de Osasco -foto de 1922.




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Vila operária da Fábrica de Papeis e Papelão -foto de 1922.


Somente no período de distrito, após 1918, é que Delfino Cerqueira construiu uma vila operária, bem no centro de Osasco - onde hoje está a galeria Fuad Auada com entrada de frente para a atual rua Antonio Agu. Do outro lado com frente para a atual rua Primitiva Vianco ficava a Vila Sasha.


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A Vila Cerqueira (aquarela de José Luiz Oliveira) vista de quem olhava da rua Antonio Agu.




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A Vila Sasha - primeira residencia do barão Evaristhe Sensaud de Lavaud ao chegar em Osasco - Quando Dimitri, filho do barão, se casou ficou morando ai e o barão mudou-se para o chalé Bricola




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Vila Sascha em 1899
Aquarela de José Luiz Oliveira

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na foto: a esquerda família Ferre, ao centro família Sensaud de Lavaud, a direita Antonio Agú e amigo.



O centro de Osasco, no período de Antônio Agu, desenvolveu-se como São Paulo, a passos largos. Enquanto os vizinhos continuavam a ter grandes extensões de terras, magras plantações e algumas cabeças de gado, o fundador de Osasco tinha os mesmos bens que seus vizinhos. A diferença foi a preocupação que se tornou o seu objetivo de vida: transformar seu sítio em um bairro. Assim, fez tudo o que pôde para viabilizar o desenvolvimento do seu espaço: um armazém de carga e descarga de mercadorias contínuo ao prédio da estação, correios, comércios diversos, fábricas, cooperativas de abastecimento e muitas casas.



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A Carta de Alforria


Antônio Agu passa a dedicar-se aos seus negócios. Compra e vende propriedades, empresta dinheiro a juros para outros imigrantes, que, como ele, também viviam das olarias. Reforma a casa doutor Domingos Jaguaribe, no bairro da Minhoca, em São Paulo, e também se torna avô de uma menina de nome Josephina Vianco.


Esta foto é de 1887
ao centro Antonio Agu ladeado de sua filha Primitiva e o genro Antonio Vianco
(seu primo)



Em 1889, sua filha, Primitiva Domenica Michela Agu, casada com seu primo Antônio Vianco, aos 17 anos de idade dá à luz a menina Josephina Vianco.

A alegria pelo nascimento da neta dura apenas 30 dias, pois sua filha Primitiva Vianco morre vítima de febre puerperal causada por infecção pós parto.

Para ela foi comprado o jazigo do Cemitério da Consolação, que ainda hoje pertence à família. No mesmo local, foram enterrados também Antônio Vianco, marido de Primitiva, e Antônio Agu


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Túmulo da Família Agu no Cemitério da Consolação em São Paulo.




A prima de Antonio Agu, Cristina Fornazari, cuidou da pequena Giusephina, sua neta.

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A foto acima é de 1892, a esquerda de Antonio Agu, sua prima Cristina Fornazari. A direita seu genro Antonio Vianco e sua neta Josephine já com quase 4 anos de idade que foi enviada para a Itália para iniciar seus estudos.

Pode parecer uma coisa simples dar a outrem o poder de "vender, hipotecar, passar e assinar escritura, entrar em qualquer ajuste, receber quantias, dar quitação, praticar todo e qualquer ato que for a bem de seus interesses (...)". Mas, no caso de Antônio Agu e Benvenuta Chiaretta Agu, isso foi uma verdadeira "carta de alforria".

O fato de ter se casado em comunhão de bens fez com que Antônio Agu necessitasse da permissão de sua mulher para gestar a "Ilha de São João", bem como a casa da Vila Raffard, em Capivari.

Para assinar esse documento, Benvenuta Chiaretta veio ao Brasil pela primeira e última vez. Não se sabe ao certo, mas essa procuração afirma que Benvenuta vivia em Comiana, na Itália. Mais que uma procuração com amplos poderes, Benvenuta Chiaretta deu ao marido a condição de se desenvolver e seguir a vida independentemente da vontade dela. Antônio Agu estava livre para fazer das terras do Sítio Boycicaba o que quisesse.

clique no mapa para ver em tamanho grande.

Mapa da região entre os anos 1887-1894

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Nessa mesma data, o casal passou outra procuração para dois advogados, que buscariam o empréstimo hipotecário em qualquer banco.

Esse foi um período econômico brasileiro em que o dinheiro prometido pelo Imperador D. Pedro II haveria de aparecer, já que a falta de papel-moeda no país foi uma das razões da queda do Império. A emissão de dinheiro seria uma das medidas econômicas do primeiro governo republicano.

Assim, a atitude de Antônio Agu, de pedir a dois advogados que procurassem dinheiro para que ele pudesse investir em suas terras, foi normal para a época.

Uma das exigências econômicas republicana que beneficiou as terras do km 16, foi o empréstimo a proprietários com terras produtivas. Ou seja, as terras que tivessem culturas e utensílios que garantissem, com sua penhora, o dinheiro tomado emprestado aos bancos.

As vantagens de se conseguir dinheiro emprestado no banco, nesse período, eram a taxa de juros menor e o prazo de pagamento das parcelas (que eram semestrais).

O sítio não ficou sem progredir durante os três anos que decorreram entre a compra e a carta de alforria. Pelo contrário, o acelerado desenvolvimento urbano em que vivia a São Paulo de então, viabilizou a construção de mais fornos na olaria. Passaram de 30 para 130 mil os pés de vinhas, árvores frutíferas, nove casas de tijolos com seis cômodos cada, uma casa grande de moradia, cem cabeças de gado (sendo 60 de gado vacum e 40 de cavalar), casa de máquina da fábrica de papel, olaria de tijolos e telhas (com três amassadores e três grandes fornos), cinco ranchos e cinco casinhas para operários. Estes foram os bens que Antônio Agu deu como garantia pelo empréstimo recebido do Banco União de São Paulo.

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Ruy Caetano Barbosa de Oliveira

Rui Barbosa

Foi através das leis de crédito móvel à produção, propostas pelo então ministro da fazenda Rui Barbosa, que o banco enviou os seus avaliadores para estudar qual a possibilidade de empréstimo e o quanto poderia ser emprestado a cada tomador.

Para entender melhor a questão do empréstimo, é preciso saber que, como ministro da fazenda, Rui Barbosa cumpriu o que o Império havia prometido. Ou seja, autorizou 17 estabelecimentos bancários a emitir 172 mil contos em moeda corrente e canalizou este valor em empréstimos para a indústria. Também foi ele que assinou a primeira lei de reserva de mercado aos produtos industriais brasileiros. Com isso, fica claro o período econômico fértil, que o fundador da Vila Osasco começou a viver.



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Construindo a Estação


É inegável o progresso econômico que as vias férreas trouxeram para toda a economia brasileira. São Paulo se tornou a "locomotiva brasileira", através da associação entre cafezais e vias férreas. Trens eram o meio de transporte mais rápido, barato e eficiente para escoar a produção agrícola ou industrial dos lugares mais distantes para o Porto de Santos.

Para transportar a sua produção, o km 16 da Ferrovia Sorocabana havia, em 1887, um pórtico.

Uma estação de trem determinava um ponto constante de carga e descarga, tanto de passageiros como de mercadoria, e com isso se tornava parada obrigatória dos trens.

Em sua análise anual de necessidades para prosseguir seu desenvolvimento, o departamento de tráfego da Companhia Sorocabana exigia uma estação intermediária entre São Paulo e Barueri. Essa necessidade foi apontada no Relatório da Superintendência de Tráfego no ano de 1894.

Esses relatórios eram apresentados ao presidente, que os levava aos acionistas a cada ano. Porém, os dados e sugestões apresentados eram baseados nas atividades e necessidades do ano anterior, ou seja 1893.

Em agosto de 1895, o superintendência declarou aberta uma estação no km 16. Nesse mesmo ano, em setembro, o relatório apresentado aos acionistas da Cia. União Sorocabana e Ituana continha os serviços realizados: "Foram estabelecidos dois desvios: um no km 3 da linha "Porto Martins-São Manuel", de 100m, e outro, no km 16, de 250m, na estação Osasco, para os trens de carga"”.


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  Assim, em 1895, a estação de Osasco já era uma realidade. Mas um ano antes, em agosto de 1894, na escritura da venda de terras que Antônio Agu e sua mulher fizeram a Comorati Ciriaco, a localização da área era clara: "(...) um terreno nesta Comarca, na Estação de Osasco, Estrada de Ferro Sorocabana". Portanto, o ano correto da construção física da estação é 1894, mas foi em 1895 que ela se tornou oficialmente doada à Cia Sorocabana. Em 1896, ela foi ampliada por seu construtor, Antônio Agu, passando a fazer parte do projeto original uma sala de visitantes.



Estação de Osasco.

 

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A Vila Osasco 25 de Janeiro de 1909


O jornal "O Estado de S. Paulo" de 1909 escreveu: "Um bairro longínquo da Capital, onde estão instaladas as grandes oficinas de cerâmica da firma Sensaud de Lavaud & Cia (...)".

O jornal "O Estado de S. Paulo" de 1909 escreveu: "Um bairro longínquo da Capital, onde estão instaladas as grandes oficinas de cerâmica da firma Sensaud de Lavaud & Cia (...)".

Nesse ano, Osasco já era um bairro operário de São Paulo. Nele, habitavam mais de 300 famílias, ligadas a atividades industriais e comerciais desenvolvidas por Antônio Agu e os demais empresários.

O bairro operário contava com um restaurante, de propriedade de Emílio Barbiani; comércio de gêneros alimentícios de José Lisboa; loja de fazendas de Guiseppe Miguel; fábrica de cerveja de Gioni & Miguel; louças e produtos alimentícios dos Irmãos Gianetti, que era uma fábrica de massas e padaria, localizada no Largo da Estação, onde hoje está a loja Marisa; a Cooperativa de Produtos Alimentícios da Cerâmica Sensaud de Lavaud, que ficava na rua da Estação, e as olarias dos Irmãos Rovay, onde anteriormente era a olaria de José Manuel Rodrigues ou Olaria São João.

Havia ainda os seguintes comércios: José Carletto, com gêneros alimentícios; César Mischer, também com gêneros alimentícios; o sapateiro João Tonto, o funileiro Cheso Baptiste e a quitanda de Aliere Giovanni.

As primeiras ruas já estavam ocupadas com moradias. Primitiva Vianco, Enrico Dell’Ácqua (atual Antonio Agu), Giovanni Brícola (atual rua João Batista), o largo dos Operários (onde hoje está a praça Marques de Herval), a rua da Estação, entre tantas outras que tiveram seus nomes mudados com o passar dos anos.

Quando o fundador da Villa Osasco faleceu, em 25 de janeiro de 1909, era irreversível a condição de bairro operário conquistado pelos esforços e pelo trabalho dos muitos italianos que trabalharam para a realização do sonho de Antonio Agu: criar um bairro.

Reconhecendo os méritos do idealizador e fundador do bairro, os moradores de Osasco acompanharam o corpo da estação de Osasco até o Cemitério da Consolação.

Antes de falecer, Antônio Agu teve a preocupação de deixar seu testamento lavrado de próprio punho.

Nele estabelecia a área para a construção da igreja, do seminário e do cemitério. Fez de sua neta Giusephina Vianco, que depois casou-se com Cesare Enrico, herdeira de todos os seus bens.



Giusephina Vianco e Cesare Enrico

 

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Osasco nos Anos 20


O ano em que morre o fundador da Vila Osasco é ano de eleições presidenciais. Os eleitores deveriam escolher o sucessor de Afonso Pena, em 1909. O jornal O Estado de São Paulo era contrário à candidatura do Marechal Hermes da Fonseca, apoiando Rui Barbosa e sua Campanha Civilista.

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Afonso Augusto Moreira Pena
6.º Presidente do Brasil

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Hermes Rodrigues da Fonseca
8.º Presidente do Brasil

Após a vitória de Hermes da Fonseca, o jornal chefiou a oposição, publicando em 27 de março de 1910 o manifesto de Rui Barbosa à nação, que denunciava fraudes nas eleições.

O Brasil já se caracterizava pelos contrastes da grande modernização, como construção de estradas de ferro, ampliação da esquadra da Marinha. Ao lado, o povo, subalterno e omisso ao processo político dominado pelas elites urbanas e agrárias.

Os grandes fazendeiros, de café na sua maioria, definiam através da violência, as eleições e seu sistema de dominação, o coronelismo. O coronel era, sobretudo, uma figura local, exercendo influência política, econômica e social nas cidades, vilas e povoados. Nessas localidades, aonde não chegava a autoridade do Estado, as funções públicas de polícia e justiças eram exercidas de forma privada pelos coronéis. Mesmo que no município existissem delegado, juiz e prefeito. As autoridades ficavam abaixo do poder do "mandonismo local".

Esse poder era resultante da condição de latifundiário, sendo diretamente proporcional à quantidade de terras que possuía. Quanto mais terra, maior era o número de pessoas que dependiam do coronel. Assim se estabelecia a relação de dominação pessoal do "coronel" sobre seus dependentes. Quando se perguntava a alguém: "Quem é você?", a reposta era: "Sou gente do coronel 'fulano'".

Na Vila Osasco a vida não era diferente do resto do país. Para ilustrar este coronelismo local é que transcrevemos a fala da testemunha do carteiro João Gonçalves Bueno, 36 anos, residente na vila. Bueno era agente do correio na Estação de Osasco, e foi ouvido pelo juiz na disputa de terras do sítio Paiva Ramos.

"O Dr. Victor Ayrosa tenta impedir o depoimento do carteiro dizendo que ele e José de Camargo eram amigos de infância.

Já João Gonçalves Bueno diz que é inimigo capital do autor e que não estava subornado pelo procurador, José de Souza Oliveira, da ré, Joaquina Francisca de Paiva. Contra argumentou o Dr. Ayrosa que o carteiro, no desempenho de suas funções, foi contratado pelo procurador da ré para contatar outras testemunhas. Diz ainda que o carteiro foi à casa de Joaquim Antônio Leonel empenhar-se para que este viesse depor em benefício da ré.

Procurou Simas Pimenta, mostrando-se vivamente interessado pela ré. A testemunha é pessoa dependente e protegida do Coronel Julio Esteves que também tem interesse pessoal nesta causa, pois pretende ser dono do Rincão da Clara que faz parte do sítio em litígio (...)".



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O Desenvolvimento Econômico nos Anos 20


A recuperação dos níveis de investimentos na economia brasileira foi iniciada em 1902 e logo seguida de uma nova fase de expansão, a qual atingiu o pico entre 1902-1913. Nesta fase de expansão dos investimentos, ocorreu apenas uma pequena recessão em 1908-1909, refletindo os efeitos da recessão econômica mundial, após a recessão da economia americana em 1907.

O governo brasileiro fez crescentes despesas para a construção de estradas de ferro, equipamentos de portos, melhoramentos urbanos, etc. Foram largamente financiadas por recursos externos. E um bom exemplo dessa expansão econômica com recursos estrangeiros, que chegou às terras de Osasco, é o banqueiro João Brícola. Ele veio ao Brasil para trabalhar como engenheiro na Estrada de Ferro Paulista e após o término da obra da ferrovia, comprou, em sociedade, um comércio de secos e molhados, importações e câmbio. O nome era João Brícola, Gatti & Cia., em sociedade com Mariano Gatti, Carlos Fenili e João Marques.

Funcionou entre 1892 e 1898. Dentro destes seis anos, a empresa já tinha movimentação financeira e imobiliária significativa, pois foi João Brícola quem comprou as terras de Comorati Ciriaco em 1894, Irmãos Gianetti e Zampiezi Primo em 1896 e Irmãos Gianetti e Dell'Ácqua em 1898. Isso só na Vila Osasco.

Através da lei de n° 24 de 1° de fevereiro de 1901, ficou legalmente autorizado o funcionamento do Banco de Napoli, cujo sócio gerente era João Brícola.

Acompanhando o desenvolvimento apressado de São Paulo, Osasco recebe, através da Resolução municipal n° 50 de 22 de agosto de 1914, a autorização para construir um matadouro, a fim de fornecer carne para a Capital. O proprietário desta concessão municipal era o Coronel Delfino Cerqueira, também proprietário da fazenda Carapicuíba e de outra fazenda em Monte M'or, no município de Capivari, região de Campinas. Foi o Coronel Delfino Cerqueira quem construiu o matadouro do Km 21. Neste mesmo ano, 1914, e através do requerimento n° 952, a companhia Light and Power recebe uma faixa de terreno de 6500 metros de extensão e 20 de largura, para a construção de uma linha distribuidora de energia entre os distritos da Freguesia do Ó e Osasco, o que certamente não deve ser entendido como a chegada da luz nos lares da Vila Osasco.



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A Inconstitucionalidade da República dos Coronéis


Em 27 de abril de 1913, Júlio Mesquita, editor chefe do jornal O Estado de S. Paulo, publicou editorial denunciando a inconstitucionalidade do fechamento do Congresso.

No momento da sucessão de Hermes da Fonseca, em 1914, mais uma vez O Estado de S. Paulo apoiou a candidatura de Rui Barbosa que foi derrotado por Wenceslau Brás. Durante esse período, o jornal atravessou nova crise, provocada pelo apoio de Júlio Mesquita aos Aliados na Primeira Guerra Mundial. A maioria dos anunciantes do jornal era constituída de alemães, que gradualmente retiraram sua publicidade. O balanço financeiro de 1914 acusou uma grande queda nos lucros do jornal.

Foi com o Marechal Hermes da Fonseca que os militares voltaram ao governo: foi o período das "salvações militares", pois foi através deles que aconteceu a política intervencionista do governo nos Estados. Assim, o poder começava a mudar das mãos das oligarquias de oposição ao governo para os grupos vinculados aos próprios militares.

Este período foi palco da Revolução da Chibata, em que a Marinha brasileira, que acabava de adquirir dois novos couraçados, ainda se caracterizava pela violência no recrutamento e pelos maus tratos aos marinheiros, que trabalhavam sob rigorosa disciplina imposta pelos altos oficiais.

Em 1916 ocorre a promulgação do primeiro Código Civil Brasileiro, que passou a vigorar a partir de 1º de janeiro de 1917. Neste mesmo ano, ocorreu uma das primeiras greves no Brasil. Era a classe operária que começava a se organizar. Os trabalhadores entraram em choque com policiais, mas o movimento grevista teve êxito ao conseguir o aumento de salários, a não-punição aos grevistas e a liberdade para os que haviam sido presos. Estes fatos, somados às notícias sobre a Revolução Soviética, fortaleceram o movimento operário no Brasil. A classe operária ganha novo rumo político e a participação de nacionais cresce.

Em 31 de dezembro de 1918, através da lei municipal n° 1634, Osasco passar a ser o 16° subdistrito da capital com a seguinte divisa: "Principia no alto do morro do Jaguaré à direita e Carapicuíba e Bussocaba à esquerda, até encontrar a cabeceira principal do córrego Continental, pelo qual descem até o rio Tietê; subindo por este até a barra do córrego do Cintra, continuando por este até a estrada velha do Mutinga e por esta até o ribeirão Vermelho, cujo curso acompanham até ao ribeirão da Olaria, subindo por este até a sua cabeceira ocidental entre os morros Jaraguá e Doce, daí pelo divisor das águas entre os rios Juqueri à direita e Tietê à esquerda, até encontrar as divisas entre o município da Capital, o de Parnaíba e depois o de Cotia e por este até o morro do Jaguaré, onde teve começo".

Através desta lei municipal, a vila torna-se distrito e por isso passa a ter um cartório de notas, um juiz de paz e um distrito policial, que só foi instalado quando do segundo movimento pela emancipação. O cartório, com a tabeliã Eloísa da Silva Prado à frente, começou a funcionar em agosto de 1919. A primeira escritura lavrada foi de venda de um terreno à Rua André Rovai. O comprador era Angélico Vallin, comerciante. O terreno adquirido media 67 metros de frente por 27 metros da frente aos fundos, com a mesma largura da frente. Fundos com a Estrada de Ferro Sorocabana. O vendedor foi o primeiro a comprar as terras de João Pinto Ferreira, quando seu sítio ainda era chamado de Ilha de São João.

O término da construção do Matadouro trouxe outros investimentos para o distrito. É o caso do contrato comercial celebrado entre o Coronel João Antônio Netto e Agostinho Cretell, capitalista e Oscar Brizola e Pedro de Souza Neto. Esses sócios se associaram para explorar a compra e venda de gado em geral, na praça de São Paulo. Para tanto, o Coronel entrava com 30 contos de Réis dos 50 de capital social da empresa, "o que os realiza imediatamente pelo depósito da quantia no Banco do Comércio Indústria de São Paulo e 20 contos de Réis do sócio Agostinho Cretelli que se compromete a depositar a quantia em 10 dias no mesmo Banco". A Razão Social da empresa era Cretelli & Netto. Ao sócio Agostinho Cretelli cabia o dever da gestão da venda de gado no matadouro da capital, que a esta altura já eram três, e do açougue da firma. Ao sócio Coronel João Antônio Netto cabiam os negócios relativos à compra de gado e porcos na mesma capital ou no interior, para consumo do açougue e venda aos matadouros.

A caixa social ficará inteiramente a cargo do sócio Coronel João Antônio Neto. O sócio Agostinho Cretelli entregou à sociedade o estabelecimento denominado "Açougue Abranches", situado na rua Doutor Abranches n° 21-A, no centro de São Paulo, com dois carrinhos com os competentes arreios e animais, bem como todos os móveis e utensílios existentes no açougue, sem remuneração. Não precisa dizer que esta foi uma sociedade que durou apenas os seus dois anos de contrato.

História de Osasco

Cel. Delfino Cerqueira

As escrituras públicas lavradas no cartório de Osasco mostram onde e com quem estava o poder financeiro. Coronel Delfino Cerqueira era outro capitalista que contratava os serviços de José Francisco dos Santos, empreiteiro de obras. Pelo contrato celebrado entre os dois, o segundo deveria construir para o primeiro um prédio de sobrado no terreno à rua João Brícola, atual avenida João Batista.


O construtor do prédio obedeceria rigorosamente a planta aprovada pela prefeitura da capital e a construção teria no andar térreo uma sala na entrada, fachada ladrilhada à mosaicos, uma sala de visita, uma varanda, todas assoalhadas. Tudo conforme o memorial descritivo da obra que foi arquivado na prefeitura de São Paulo. O prédio possuiria 8 metros de frente por 12 metros da frente aos fundos, contendo oito cômodos no pavimento térreo e cinco no piso superior, que são: um salão um gabinete, três dormitórios, todos forrados e assoalhados, cujas paredes internas e externas seriam pintadas a cal, bem como as portas, forro e janelas a pintar a óleo. Na obra, só poderia ser usado material de boa qualidade.

O coronel Delfino entregou ao contratado uma bomba para puxar água, em bom estado, a qual serviu para levar a água do poço ao pavimento superior do prédio, ficando o empreiteiro responsável pela colocação e bom funcionamento. A obra deveria iniciar em 20 de setembro de 1919 e terminar em sete meses. O Coronel obrigava-se a pagar 20 contos de reis ao empreiteiro pela construção, sendo 5 no ato de lavratura do contrato, 2 contos depois do prédio receber o primeiro vigamento. Outros 5 contos por ocasião da cobertura e o restante 8 contos quando da entrega do prédio.

Delfino emprestava dinheiro a juros a quem tivesse garantia ou fosse seu amigo. Por isso, em outubro de 1919, Joaquim das Neves e sua mulher Maria de Jesus lhe pediram um empréstimo de 4 contos e 500 mil Réis, pelo prazo de quatro anos. Os juros eram de 18% ao ano, que eram pagos ao credor até o dia 10 de cada mês. Como garantia da dívida, Joaquim e Maria deram ao Coronel uma chácara com quatro casas, plantações e outras benfeitorias que possuíam, livre de qualquer ônus. A chácara era formada pelo lotes 17 e 18, na fazenda Rio Pequeno, posterior Cerâmica e hoje Presidente Altino. Media 22 metros de frente por 42 metros de fundos; pela frente, com a mangueira, vai à porteira da entrada da Cia. Continental de Produtos, de um lado pelos fundos com a mesma companhia.

Outro empréstimo neste mesmo ano e bairro foi a Antônio Francisco, português. Valor de dois contos de reis por quatro anos a juros de 18% ao ano, a serem pagos ao credor anualmente. Observe que o que muda é a forma de pagamento entre um empréstimo e outro, porém os juros são os mesmos. Para garantia e segurança do valor emprestado, o credor recebe em hipoteca os terrenos dos lotes 19 e 20 da fazenda Rio Pequeno, medindo 20 metros de frente por 40 metros de fundo pela frente, com a rua que servirá de porteira para estrada da Cia. Continental de Produtos. Limitando-se de um lado com Joaquim das Mercês e do outro com uma rua projetada. O terreno possuia duas casas medindo ambas 106 metros de frente por 8 metros da frente aos fundos.

Neste ano, o distrito de Osasco tinha apenas o centro e o futuro bairro do Bonfim, como áreas precariamente urbanizadas.



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Construindo o Quartel de Quitaúna


Pandeá Calógeras foi nomeado ministro da Guerra do governo de Epitácio Pessoa, tornando-se o único civil a ocupar esse cargo na história republicana do país. Sua escolha foi aprovada por um grande número de oficiais do Exército.

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Pandiá Calógeras

Sua administração começou em outubro de 1919, e o Exército brasileiro experimentou intensa modernização, expansão e aperfeiçoamento em todos os setores, contando para isso, a partir de 1920, com a assessoria da missão militar francesa chefiada pelo general Maurice Gustave Gamelin, que teve profunda influência na modernização do Exército e na formação de oficiais de Estado-Maior.

Calógeras promoveu a reforma da instrução, dos quadros e da tropa e para tornar a instituição mais técnica, criou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais. Some a isso a nova regulamentação para as escolas de Estado-Maior, de Aviação, de Veterinária e para os colégios militares. Para consolidar suas reformas junto às Forças Armadas, fez uma divisão territorial militar e a organização das divisões do Exército, reorganizando a artilharia de costa e criando a Diretoria Geral de Intendência e Guerra.

Fez grandes aquisições de material bélico moderno para as diversas armas e serviços, incrementando a indústria militar nacional, sobretudo as fábricas instaladas em Realengo (RJ) e em Piquete (SP).

Construiu 103 estabelecimentos militares espalhados por todo o país, tomando cuidados especiais com as instalações de serviços básicos nas casernas. No setor de aviação, montou novas esquadrilhas, inclusive de aviões de caça.
Por influência direta da missão francesa, foram criados em 1920 o Regulamento Disciplinar do Exército (RDE) e o Regulamento Interno de Serviços Gerais (RISG). É da época deste mesmo ministro a formulação da primeira política de defesa nacional abrangendo todos os aspectos de vida do país, desde a preparação militar propriamente dita até o desenvolvimento de indústrias estratégicas, como a siderurgia. Ainda em 1920, o governo federal adquiriu a fazenda Quitaúna (SP), onde Calógeras construiu um quartel-general que serviu de apoio à ampliação da força militar estacionada em São Paulo.

O Quartel de Quitaúna levou apenas seis meses para ser construído, pois fazia parte da pressa que o governo tinha para alojar o desdobramento do 4° Regimento de Infantaria, que originalmente havia se formado no Paraná. Assim, em agosto de 1922 o quartel ficou pronto e foi inaugurado pelo presidente e pelo ministro.

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Lançamento do marco inicial em Quitaúna em 28–08–1921

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Porto Raposo Tavares, no rio Tiete. Descarga de pedregulho e areia para as obras



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Vista geral das obras em 26-10-1921

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Aqui as obras após três meses



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Grupo de operários que trabalharam nas construções do quartel para o exercito.

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Inauguração dos quartéis – Momento da chegada do ministro Calógeras e sua comitiva, da qual faziam parte o ministro João Pessoa e o Sr. Marechal Setembrino de Carvalho.



Quem mais lucrou com a venda de parte da fazenda Carapicuíba ao Exército, foi certamente o Coronel Delfino Cerqueira. Com os seus negócios auferindo lucros astronômicos, o coronel continuava emprestando dinheiro: Antônio de Carvalho Mello, proprietário domiciliado em Osasco, recebeu empréstimo de 25 Contos de Réis, por quatro anos com juros de 6% ao ano, pagos mensalmente no dia 10 de cada mês.

Interessante notar que os juros correspondem a um terço dos valores anteriores, bem como corresponde a pelo menos cinco vezes mais o valor emprestado neste ano. Como garantia, um terreno medindo 20 metros de frente por 50 metros da frente aos fundos, inclusive duas casas de construção moderna à Rua André Rovai, tendo porta e duas janelas cada uma. Confinavam de um lado com Ferdinando Benchi, de outro com José Nusches e pelos fundos com Manoel José Rodrigues. Mesmo se considerarmos que a Rua André Rovai neste tempo tinha um desenvolvimento urbano parecido ao do centro, ainda assim, o valor, as garantias e os juros deste empréstimo, que foi rigorosamente pago pelo credor, merecem investigações.

É também neste ano que o armazém do Largo de Osasco, de propriedade de Ângelo Bartolomasi, muda de dono e passa a ser de Janaris Christi. A casa onde estava instalado o armazém era de propriedade de Cesare Enrico, marido da neta do fundador do distrito. A casa tinha um salão à frente com armazém, varanda, dois quartos, casinha com os respectivos serviços de latrina e quintal.

O negócio de animais para o matadouro trazia para a cidade novos investimentos. Foi o caso do arrendamento feito por Manoel Rodrigues à Kent Buscola & Cia. O proprietário arrendou um terreno medindo 40 metros de frente por 40 metros da frente aos fundos, situado ao fim da Rua André Rovai, que serviria para a construção de mangueiras. Pelo prazo de dois anos, o aluguel foi de 40 mil Réis, que seriam pagos mensalmente a cada dia 10. Os locatários já se acharam de posse do referido terreno, e poderiam alugar ou transferir o contrato a quem lhes convier. Os impostos estaduais e municipais seriam pagos pelos outorgantes Kent Búscola.

Outro arrendamento feito na Rua André Rovai foi do açougue, que passou de Angélico Vallim para João Peres, casado, espanhol e Carmello Felício, solteiro, italiano, ambos comerciantes. O açougue ficava em um prédio com duas portas, dois quartos, casinha e quintal.

Através destes arrendamentos, podemos concluir que o comércio da cidade estava no Largo da Estação e na Rua André Rovai. Até porque passar de um lado ao outro não era esforço, afinal não havia muro e passarela na linha férrea.

O outro lado do Rio Tietê também progredia com a venda de terrenos, bem mais baratos. Era a Vila dos Remédios. É na rua onde ancorava a balsa do barqueiro José Feliciano, que José Jorge Antônio da Silva comprou um terreno de 250 m2. Era situado aos fundos das terras pertencentes a Joaquim de Camargo, com quem dividiu a frente e Amaro Branco, com quem dividiu os fundos.



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Eleições em Osasco a 19 de Fevereiro de 1921


Na República Velha e por causa do coronelismo, as eleições tinham o total descrédito dos eleitores. Neste tempo, o voto feminino era proibido, o que terminava formando um palanque à parte para as feministas. O descrédito do voto do eleitor era de tal que a eleição para ser válida exigia a presença de tabelião durante a votação e a lavratura de uma Ata de Relato da Eleição.

O jornal Diário da Noite de 18 de fevereiro de 1921, trouxe a seguinte notícia:

"Realizam-se amanhã, em todo território da República, as eleições dos representantes dos Estados ao Congresso Nacional. Para a representação de São Paulo, a Comissão Diretora do Partido Republicano Paulista apresentou à reeleição os congressistas da última legislatura. São eles: para senador federal, o Sr. Dr. Adolpho Affonso da Silva Gordo; para deputados federais, pelo 1° Distrito, os srs: Dr. Antônio Carlos de Salles Júnior, Dr. Carlos Augusto Garcia Ferreira, Cr. Cincinato Braga, Dr. Francisco Ferreira Braga, Dr. José Roberto Leite Penteado, e Dr. Raul Renato Cardoso de Mello; pelo 2° Distrito, os Srs. Dr. Alberto Sarmento, Dr. César Lacerda de Vergueiro, Dr. Eloy de Miranda Chaves, Dr. Joaquim Augusto de Barros Penteado, Cel. Marcolino Lopes Barreto e Dr. Prudente de Moraes Filho; pelo 3° Distrito, os Sr. Drs. Arthur Palmeira Ripper, João de Faria, João Pedro da Veiga Miranda, José Manuel Lobo e Raphael de Abreu Sampaio Vidal. Pelo 4° Distrito, os Srs. Drs. Arnolpho Rodrigues de Azevedo, Carlos de Campos, Francisco de Paula Rodrigues Alves Filho, Manuel Pedro Villaboim e Pedro Luiz de Oliveira Costa.

Apresentaram-se candidatos extra-chapa, para senador, o Sr. Dr. Nicolau Soares do Couto Esher, e, deputados pelo 1° Distrito os Srs. Drs. Rubião Meira e Dr. Amaral Carvalho.

Em Osasco, a eleição foi relatada na escritura: "Ata de Eleição para Deputado Federal e Senador no triênio 1921-1923". Primeira e única seção eleitoral do distrito de Paz de Osasco no edifício da 1° escola feminina, previamente designada para proceder as eleições para constituição da Câmara dos Deputados Federais no triênio 1921-1923 e renovação do terço do Senado Federal, em continuação dos trabalhos da reunião e instalação das mesas, estando o recinto deste separado do público por um gradil, mas de modo a ser facilitado a fiscalização, ali compareceram Abel de Rezende Villares, presidente, Francisco Licínio de Camargo e o Dr. Alcides Prestes, mesários, designados.

No texto do documento: "O presidente abriu a urna que se achava sobre a mesa, mostrou a todos os presentes que verificaram achar-se vazia e a fechou, anunciando em seguida que para evitar fraudes, ia chamar apenas os eleitores constantes da lista enunciada pelo juiz de direito mais antigo da Comarca, guardando uma das chaves e entregando a outra a mim, secretário, e designado para fazer a chamada. O mesário é Francisco Licínio de Camargo, seguindo: Alfredo Moraes, Ambecário de Oliveira, Dr. Athaíde de Vasconcelos, Blaska da Silva, Ângelo Teixeira Medeiros, Aristides Collino, Carlos Grusso, José de Freitas e Silva, José Antônio Rodrigues, Antônio Rolim de Oliveira Gouvêa, Francisco Aragone, Carlos Braga Junior, Lázaro Silva Junqueira, José Nuceino, Mario Biancacai, Ceslando Primi, Belarmino Izidoro da Silva, Atílio Angelino, Delfino Cerqueira, Clóvis Augusto Rodrigues, Alceu de Rezende Villares, e Alcides Prestes. Os eleitores acima assinados, em número de 113, ao exibirem seus títulos, tiveram os mesmos datados e rubricados pelo Presidente da mesa eleitoral, apresentando suas cédulas em invólucros fechados, sem distintivo algum, uma para deputados e outro para senador e introduzidas na urna. Tendo se apresentado para votar Ângelo Biandi, Augusto Camargo Guimarães, Licínio Castilho e o Dr. Pedro de Alcântara, os três primeiros munidos dos respectivos títulos e carteiras de identidade e o último com título do Município de São Manuel, cujos nomes não constaram da lista dos eleitores, revisada pelo Dr. Juiz de direito mais antigo da Comarca, a mesa resolveu unanimemente tomar todos os votos em separado, sendo que os três primeiros votaram para deputados federais os seguintes nomes: Dr. Raul Renato Cardoso de Mello, advogado, residente na capital; Dr. Antônio Calos Salles Júnior, advogado, residente na capital, Dr. Cincinato César da Silva Braga, advogado, residente na capital. Os eleitores votaram para senador federal no nome do Dr. Adolpho Affonso da Silva Gordo, advogado residente na Capital. Estes candidatos de tais eleitores, quatro votos em separado tendo apreendido o título de cada um e respectiva caderneta, rubricando o presidente as cédulas e títulos referidos para oportunamente enviar à junta apuradora. Deixaram de comparecer 324 eleitores, cujos nomes ficaram na referida lista de chamada. Em seguida, o presidente e secretário abriram a urna em presença do eleitorado, com as chaves que cada um tinha em seu poder. Tiraram primeiramente as chaves cada um tinha em seu poder, tiraram as cédulas e as reuniram em maço de 50 e depois separaram as que se referiram a cada uma das eleições de deputados e senador conferem o número total das cédulas com a dos eleitores que compareceram e anunciou serem 109 para deputados e igual número para senador e lançaram nas imediatamente na urna. Logo depois declaram que seria procedida a apuração das cédulas pela seguinte ordem: deputados e senadores, distribuindo o trabalho entre os mesários.

Tirando as cédulas da urna uma a uma, primeiro as lia em voz alta e as ia passando aos mesários, para a verificação dos nomes lidos. E as sucediam, cada uma separadamente, escrevendo em uma relação os nomes dos votados e o número de votos, publicando-as também em voz alta. Apurados, assim, sucessivamente, as cédulas de todas as eleições e depois de formada uma lista geral com os nomes de todos os votados, o Presidente proclamou em voz alta o seguinte resultado:

Para deputado, os Drs. Francisco Ferreira Braga, engenheiro residente na Capital Federal, que obteve 132 votos e três em separado; Raul Renato Cardoso de Mello, advogado, residente na Capital, obteve 102 votos e três em separado; para senador, o Dr. Adolpho Affonso da Silva Gordo, que obteve 106 votos e quatro em separado.

Logo depois, foi afixado à frente do edifício, edital assinado por todos os mesários com o resultado. Concluídos os trabalhos, a mesa ordenou que fossem os livros remetidos ao presidente da junta apuradora do Estado, com ofício pelo correio sob registro. "Eu, Edmundo José de Lima, secretário, lavrei a presente ata em duplicata que assino com o Presidente e Mesários".

As feministas deixaram cair o seguinte apelo à imprensa, em 20 de março de 1921, no "Correio da Manhã", jornal de circulação no Rio de Janeiro: "A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, órgão do movimento feminista no Brasil, faz um apelo à imprensa carioca, sempre generosa na defesa das causas nobres, solicitando que desse o seu apoio à campanha em prol dos direitos políticos da mulher".



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Inspeção Sanitária de 1922


Por causa da febre amarela, a legislação sanitária da Velha República para o Estado de São Paulo autorizava a nomeação de inspetores sanitários pelo governo. Estes funcionários públicos eram distribuídos pelos distritos, de acordo com as necessidades e por determinação do diretor do Serviço Sanitário, do qual recebiam instruções. Eram responsáveis pelo cumprimento das leis sanitárias e regulamentos. Faziam cumprir a legislação vigente através de intimações, aplicações de multas e outras providências que deveriam ser comunicadas ao diretor do Serviço Sanitário. Em outras palavras, competia-lhes o policiamento e fiscalização das questões sanitárias.

Por essa época era dito popular que a febre amarela "não subia os morros" e por isso São Paulo e Campinas tinham uma incidência menor da doença.

Como sempre, a maior ou menor quantidade de pacientes influenciava o comportamento das autoridades locais e da própria população.

Quando ocorriam supostos casos de febre amarela, o debate médico efervescia, inclusive na imprensa local.

A Revista Médica de São Paulo, fundada em 1898, era um importante periódico da categoria paulista. Segundo o editorial do primeiro número, a revista foi definida como um jornal prático de medicina, cirurgia e higiene, acompanhando de perto políticas públicas de saúde no Estado, inovações e pesquisas científicas produzidas no Brasil e no exterior. Muitos de seus colaboradores eram membros efetivos do Serviço Sanitário.

As publicações deste periódico visavam popularizar o saber médico e por isso, "a vulgarização científica bem conduzida tem, pois, por fim real, mais esclarecer do que instruir minuciosamente sobre este ou aquele ponto em particular. A revista se propõe a preparar uma mentalidade coletiva".

A década de 1920 foi também momento importante para a ciência do país. Nela, surgiu o embrião da comunidade científica brasileira que começou, em um movimento mais organizado, a lutar por melhores condições para que a ciência se desenvolvesse no país. A criação de novas instituições científicas, a renovação daquelas já existentes e a valorização social da ciência e do cientista, são alguns aspectos que marcaram a década.

Com os acontecimentos destes novos tempos, o distrito de Osasco registra a sua primeira inspeção sanitária em 1922 e seu autor foi Alcides da Silva Ayrosa, irmão do advogado Victor da Silva Ayrosa.

Nesta inspeção, o autor nos conta como era o distrito de Osasco segundo o seu ponto de vista. Afinal, ele também era advogado, ainda que nomeado pelo Governo para fazer a inspeção sanitária do distrito onde morava e que por isso se preocupava com a insalubridade do lugar.

O autor começa seu relatório com os meio de comunicação que para ele são: Estrada de Ferro Sorocabana, atual CPTM. Estrada Pinheiros-Osasco vai até São Roque, atual Av. dos Autonomistas. Estrada de Cotia, atual Rodovia Raposo Tavares, na Zona Sul de Osasco.

Na Zona Norte: Osasco-Pirituba; São Paulo Railway - Estrada de Ferro Santos-Jundiaí; São Paulo-Campinas, atual Rodovia Anhangüera.

Travessia de balsa pelo rio Tietê, antigo porto do João Florêncio que ficava nas imediações onde hoje está a Vila Ayrosa.

A agricultura, para este pouco informado inspetor sanitário, compunha-se apenas de Castanhal, plantação de castanheiras, que ficava no atual bairro do Rochdale.

As indústrias eram: o matadouro da Cia. Continental, Cia. Cerâmica Industrial Osasco, Fabrica de Papelão e ao lado desta fábrica, outras tantas pequenas olarias.

O inspetor sanitário contou no cartório de Paz de Osasco entre 20/07/1919 até 03/11/1922: 36 óbitos de adultos e 126 de crianças. Nascimentos de 444 crianças e 69 casamentos.

O objetivo principal do inspetor sanitário Victor da Silva Ayrosa era relatar ao governo as causas prejudiciais à saúde dos 4178 habitantes, conforme senso federal de 1920. Victor Ayrosa começa seu relatório falando das águas paradas, pois por esta época já se sabia que a água parada, limpa ou suja, se tornava criadora de mosquitos e a este respeito escreve:

"Águas paradas, principalmente nas margens do rio Tietê. Águas pluviais, que não tem o escoamento necessário. Água parada que se formou no antigo leito de um riacho que teve seu curso desviado". O desvio no leito do córrego Bussocaba foi feito pela Cerâmica Industrial Osasco: "Antes de atravessar a fábrica de papelão, as águas desse córrego são limpas, dotadas de correnteza e o seu curso é mais retilíneo. Junto à fábrica da cerâmica, o córrego foi represado e como conseqüência, as suas águas alagaram os terrenos entre a Cerâmica e a Fábrica de Papelão. É o Rio Boy-Cicaba que faz a limpeza da fábrica de papelão, servindo de esgoto para as privadas, e as suas águas de correntes e límpidas que eram, tornaram-se imundas e quase paradas.

Na chácara Agu vêem-se diversos trechos alagados pelas águas, imundas do Boy-cicaba, onde bóiam enormes quantidades de materiais fecais, sendo insuportável o mau cheiro que exalam ao aquecer do sol. É de grande urgência a canalização desse córrego". Esta obra de canalização do córrego só foi iniciada após a elevação do distrito a categoria de cidade.

E segue o inspetor, "Edifícios: as casas de moradia de Osasco variam em comodidade e condições de higiene. Ainda existem casas de pau a pique. As que hoje se constroem são de tijolos. Em algumas casas existem privadas com fossas, outras não possuem e os moradores fazem suas necessidades fisiológicas nos arredores. Água de que se servem, para cozinha e higiene, é no maior número das casas retiradas de poços cavados nos quintais".

O abastecimento domiciliar de água só passou a acontecer depois que Osasco se tornou cidade, e nesta época, um poço que servia a mais de uma moradia e podia chegar a custar 100 mil réis, o que não era nada barato. Haviam casas que se abasteciam em nascentes e riachos.

Sobre as escolas, escreve Victor Ayrosa, "até a pouco eram isoladas, funcionavam em prédios diferentes. Hoje se acham centralizadas num só edifício. Estão muito mal instaladas em um prédio de moradia, insuficiente para o número de alunos, cerca de 200, 40 para cada classe, e pela impropriedade de suas salas de aula, sendo que uma delas não recebe luz direta, e sim a que vem de um terraço situado ao lado, de maneira que nos dias chuvosos, as crianças não enxergam nem mesmo para ler. Esta sala é dividida ao meio por armários, ficando uma parte para o diretor e outra para a classe. Em duas outras salas era insuportável o mau cheiro do porão, proveniente de antiga fossa que ali existia antes da escola se mudar. A água para ser bebida é retirada de poço em uma casa vizinha e posta em filtros "salus". As privadas, em número de 5, das quais 1 é para professora, é do sistema de fossas. Uma privada para 50 alunos. No recreio não existe galpão para abrigo das crianças".

Com as condições sanitárias que o inspetor relata não é de se estranhar, o aparecimento de "doenças contagiosas nas crianças: em maio deste ano, 1922, 60 crianças apareceram com feridas nas pernas, algumas ficaram impossibilitadas de andar".

Para o quartel de Quitaúna foram represados os ribeirões Carapicuíba e Ibimirim. "O ribeirão Carapícuiba fornece água mais que suficiente para uso da Vila Militar. As águas não são filtradas, passando unicamente através de uma rede metálica antes de penetrar nos canos de condução. Já as águas do Rio Ibimirim foram canalizadas para serem usadas em caso de problemas com as águas do Carapicuíba".

Quanto ao esgoto: "Em Osasco não existe esgoto e tão pouco tratamento de resíduos. O córrego Boy-Cicaba pode ser considerado um esgoto represado de uma parte da povoação".

A questão da coleta de lixo domiciliar: "Não há coleta de lixo. O mesmo é atirado nos arredores das habitações, sendo que nas chácaras é utilizado como adubo".

Quanto a higiene nas indústrias, o inspetor sanitário escreve:

Fábrica de Papelão: "Nos fundos da fábrica passa um riacho, cujas águas serão utilizadas para consumo dos operários; para isso estão sendo construídos pequenos filtros de pedregulhos e areia. Este riacho é o mesmo Boy-Cicaba, que é um grande esgoto a céu aberto entre a estrada de Pinheiros e a Cerâmica Osasco. Atualmente, a água utilizada é dos poços. É o córrego Boy-Cicaba que faz a limpeza da fábrica, servindo-lhe de esgoto. As privadas da fábrica são em n° de 4, duas para mulheres e duas para homens, estão canalizadas para o córrego Boy-Cicaba. Trabalham 80 operários e 8h por dia. Casas operárias: 30 casas com dois quartos, sala, cozinha, privada no quintal e poços água para consumo".

Sobre o Matadouro da Cia. Continental, escreveu: "a água para a lavagem do matadouro é retirada do Rio Pinheiros e para lá é conduzida, depois de usada, por meio de bombas. A água para a lavagem da carne e para a casa dos empregados é levada por bomba para um enorme tanque protegido, de onde segue para caixa situada no alto do edifício do matadouro e diretamente para as casas dos empregados. Os esgotos são canalizados para o Rio Tietê. A vila operária foi construída nos fundos do matadouro e vai até a estrada Pinheiros-Osasco. Já o caminho bastante transitado, que conduz do matadouro à Vila Anastácio, é péssimo. Estreito e segue o criadouro de mosquito, que é a várzea do Tietê".

Na Cerâmica Industrial Osasco: "Trabalham 60 operários. A água para consumo industrial e para os operários é retirada de poço. As privadas estão canalizadas para o córrego Boy-Cicaba, ao lado da fábrica. O barreiro para o fabrico de tijolos, telhas e ladrilhos é nos fundos da fábrica. Nas casas operárias, as condições de higiene são péssimas. Os moradores fazem suas necessidades fisiológicas nos arredores das habitações".

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Barreiro de onde extraia-se argila para fabricação de tijolos Cerâmica Industrial Osasco

Na Cerâmica Industrial Osasco: "Trabalham 60 operários. A água para consumo industrial e para os operários é retirada de poço. As privadas estão canalizadas para o córrego Boy-Cicaba, ao lado da fábrica.

O barreiro para o fabrico de tijolos, telhas e ladrilhos é nos fundos da fábrica.

Nas casas operárias, as condições de higiene são péssimas. Os moradores fazem suas necessidades fisiológicas nos arredores das habitações".


Outra observação muito importante é que a linha de transmissão que cortou Osasco até a Hidroelétrica de Edgar de Souza em 1914, só trouxe luz para a cidade em 1930. Por isso, conclui o inspetor sanitário que: "Osasco não possui luz elétrica, água encanada ou esgoto. E por isso, recomendo que os moradores sejam obrigados a construir fossa em suas casas". E recomenda a "drenagem dos terrenos situados à margem esquerda do rio Tietê, onde hoje está o centro da cidade, pois são inúmeras as águas paradas", estes terrenos são os que serviram por muito tempo de barreiros para as olarias, por isso é normal que tivessem muitas lagoas.

Apesar de todas as dificuldades em morar em Osasco, os moradores tinham onde se divertir, sem precisar sair do distrito. A vida noturna e cultural acontecia mesmo sem as condições sanitárias ideais.



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O Primeiro Cinema de Osasco


Periodo em que o mundo vivia envolto com notícias de grandes inventos em diversas áres

A invenção da fotografia no século XIX se deu pelos franceses Joseph-Nicéphore Niépce e Louis-Jacques Daguerre. Abriu caminho para o espetáculo do cinema, que também deve sua existência às pesquisas do inglês Peter Mark Roget e ao belga Joseph-Antoine Plateau, sobre a persistência da imagem na retina após ter sido vista.

Em 1833, o britânico W. G. Horner idealizou o zootrópio, jogo baseado na sucessão circular de imagens.

Em 1877, o francês Émile Reynaud criou o teatro óptico, combinação de lanterna mágica e espelhos para projetar filmes de desenhos numa tela.

Já então Eadweard Muybridge, nos Estados Unidos, experimentava o zoopraxinoscópio, decompondo em fotogramas corridas de cavalos.

Por fim, outro americano, o inventor Thomas Edison, desenvolvia, com o auxílio do escocês William Kennedy Dickson, o filme de celulóide e um aparelho para a visão individual de filmes chamado cinetoscópio.

Os irmãos Louis e Auguste Lumière, franceses, conseguiram projetar imagens ampliadas numa tela, graças ao cinematógrafo, invento equipado com um mecanismo de arrasto para a película. Na apresentação pública de 28 de dezembro de 1895 no Grand Café do Boulevard des Capucines, em Paris, o público viu pela primeira vez, o filme "A saída dos Operários da Fábrica Lumière". Todos ficaram encantados com o tamanho da locomotiva que aparecia no filme.


Nice Odália em entrevista a Hagop Garagem
em 01-04-2011


Em 1915 João Collino, resolveu juntamente com Antônio Pignatari e Pedro Michelli construir um galpão num terreno de sua propriedade na rua da Estação.

Ali foi aberto o primeiro cinema da cidade, o Cine Osasco, com capacidade inicial para 70 pessoas.

Em 1915 Osasco já tinha a novidade, enquanto outras vilas e distritos do país levariam anos para conhecer.

Após as sessões, jovens se concentravam na frente do cinema para paquerar.

No final dos anos 40 Inês Collino, filha de João Collino era quem ficava a frente da bilheteria do cinema.



A bombonieri com doces era tocada pela Zaira Collino Odalia e Aristides Collino era o encarregado geral.

Funcionou entre 1915 e 1950.



Um pouco mais sobre João Collino



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João Collino
Foto de 1941

O italiano João Collino só recebeu esse nome quando se naturalizou brasileiro. Nasceu como Giovanni Collino a 22 de julho de 1867, na Província de Torino, Itália, filho de Lourenço Collino com Amonita Maria Anastácia.

Chegou ao Brasil em 1889, com 22 anos e fixou moradia em Osasco. Primeiro em uma hospedaria pública chamada "Cocheiras", localizada entre a Rua Salem Bechara e Av. dos Autonomistas.

Em seguida, morou na Rua da Estação. Em 1890, naturalizou-se brasileiro e, com o tempo, passou a ser conhecido como João. Casou-se com Ana Felicidade Morino e teve cinco filhos.

Trabalhou lado a lado com Antônio Agu, contribuindo para o desenvolvimento da região. Como balseiro (a primeira balsa, que ligava o Centro à Vila São José), transportava mercadorias, alimentos, veículos e moradores. Collino foi agente dos Correios entre 1905 e 1918.

Com freqüência, ia ao Centro de São Paulo para tratar de negócios e, a pedido de amigos e moradores, levava documentos para registro em cartórios dos bairros da Lapa ou Pinheiros. Também fazia serviços de mecânica e carpintaria: produzia caixões mortuários para o cemitério local.

João Collino morreu em 1943.


Osasco

Fachada do cinema

Osasco

Interior do cinema

 
Osasco já tinha a novidade, enquanto outras vilas e distritos do país levariam anos para conhecer. Após as sessões, jovens se concentravam à sua frente para paquerar.



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O Teatro de Romulado Gianetti


A São Paulo dos anos 20 era a "ambigüidade" social: aristocracia cafeeira, burgueses, operários, imigrantes, caboclos ex-escravos. Automóveis, bondes elétricos, luzes, apitos de fábricas... A velocidade do mundo urbano se instalava sem pedir passagem. Havia também a riqueza do café, que financiou o processo industrial e os primeiros arranha-céu que vieram para ficar.

Em meio a toda esta convulsão, em 1925, São Paulo recebe a sua primeira emissora de rádio. E com isso, se agita e pulsa sem parar.

No entanto, a arte paulista era a poesia parnasiana, as formas rígidas e tradicionais, a métrica e a rima. As companhias de teatro francês e as óperas italianas só se apresentavam no Teatro Municipal. A arte paulista era muito bem comportada até 1922.

Os jovens intelectuais e artistas brasileiros traziam das suas "excursões" culturais européias, informações sobre o Futurismo italiano de Marinette, trazido por Oswald de Andrade; o Expressionismo alemão e mais tarde sobre o Cubismo, implantado no país por Anita Malfatt.

É o futurismo, cubismo expressionismo, fauvismo, dadaísmo, surrealismo que desembarcam nas malas dos acadêmicos das artes das terras tropicais.

O paulistano via a era da efervescência cultural do Modernismo, que juntou as insatisfações estéticas e extrapolou as novas concepções artísticas.

Com toda esta movimentação, Osasco não podia ficar de fora. Sendo assim, é natural que em uma escritura pública datada de setembro de 1924, que tratava da venda de um estabelecimento comercial de Romualdo Gianetti a João Coelho de Castro, no n° 44 da Rua da Estação (no mesmo prédio do armazém e da padaria), também funcionasse um teatro com platéia e palco.



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Um Ford Bigode em Osasco


O primeiro brasileiro que imaginou e fez o primeiro automóvel à sua maneira foi o pai da aviação Alberto Santos Dumont.

Não fez um automóvel pensando no carro propriamente dito. Mas o imaginou, criou, modificou e realizou pensando em criar o avião, que apesar de mais pesado do que o ar, um dia voaria.

Santos Dumont criou um motor à explosão, movido à combustão de gasolina, que o impressionara vivamente desde a sua primeira viagem a Paris. Quando surgiram os primeiros triciclos no Brasil, encantou-se com eles: "Sempre adorei a simplicidade do motor do triciclo, chegando à alta perfeição".

Quando em entrevista ao "Correio Paulistano", em janeiro de 1906, depois de sua primeira experiência com o seu Demosele, comenta: "Foi a leveza e simplicidade do pequeno motor do triciclo de 1897 que devo todas as minhas experiências".

O que Santos Dumont imaginou e fez: depois de muito meditar, foi o desenho de um modelo de motor, da mesma forma que Dimitri Sensaud de Lavaud fez quando idealizou e calculou o motor de seu aeroplano "São Paulo".

Após, foi à oficina de M. R. Abreu, que ficava no bairro do Bom Retiro, perto de sua casa. Neste ponto, como Dimitri, foi dando forma ao seu projeto, com o auxílio dos operários da oficina.

Um motor diferente, na verdade era a superposição de dois motores de triciclos em um só carter, de modo que apenas um só eixo de manivela o colocava em movimento. O movimento seria refrigerado por um único carburador.

Para diminuir o peso do motor, eliminou várias peças que julgou dispensáveis, tudo sem prejuízo de sua solidez. Depois montou esse "motor alto" na carroceria de um triciclo comum e conseguiu um automóvel original para a época: leve, resistente, rápido e com três cavalos e meio de força.

E o mais importante: com o possante motor pesando apenas 30kg. Isso, para 1897, era um grande feito, pois não se conseguia fazer máquina motriz com peso inferior a 10kg por HP.

Já em Osasco, o primeiro automóvel importado foi do Coronel Delfino Cerqueira, que o vendeu a João Marchetti em março de 1924.



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Os Sítios do Mutinga e o Barreiro das Margens do Tietê


Não houve, por muito tempo, terras mais vendidas, disputadas e trabalhadas do que as terras do Sítio do Mutinga.

Por isso, não é de se estranhar que em setembro de 1924, a locadora Maria Bassi, viúva, alugasse para os italianos Basílio Vibiani e Herminindo Bortolossi o sítio do Mutinga, com 25 alqueires, com uma casa de morada, alambique, pomar com árvores frutíferas e vinhas. Ainda que não fossem estas terras dadas como agricultáveis pelo inspetor sanitário de 1920.

Na década de 20, as margens do rio Tietê eram usadas para barreiro, retirada de areia, pedregulho e transporte de mercadoria e passageiros.

Havia também aqueles que aproveitavam as margens para lazer, caçada ou pescaria. Para o Coronel Delfino Cerqueira, as margens do rio eram um meio de multiplicar sua riqueza e por isso, em 1925, ele aluga para Osvaldo Serpa Nunes, 20 metros de linha férrea na E.F. Sorocabana, no Km 18, para a exploração e comércio de pedregulho. Este local é onde hoje está a lagoa de Carapicuíba.



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As Olarias e os Oleiros do Distrito de Osasco


Não há na região ação do homem que tenha modificado mais o ambiente do que as retiradas de barro e areia. Por causa desta atividade, o extremo norte da cidade, Jd. Três Montanhas, tem três lagos. Os lagos do Parque Chico Mendes também são resultantes da extração de barro.

Por isso, era a atividade com maior número de estabelecimentos e logo uma das mais rentáveis e das que mais empregava. Olaria, por vários anos, foi atividade para ganhar um bom dinheiro.

Por isso, o locador José Júlio, português, lavrador, não teve problema para alugar a Domingos Fontana a chácara no bairro da Carteira "Chácara Jaguaribe", para que explorasse o fabrico de telhas e tijolos dentro da referida chácara.

Para isso, o locador se obriga a usar a olaria montada com todos os seus pertences, inclusive um barracão e a lenha necessária, que está na boca do forno. Em troca, dar ao locador os tijolos cozidos, prontos e empilhados na boca do forno.

Nas mesmas condições, o locador deveria fornecer as telhas. Em cada 100 milheiros de tijolos fabricados, os locatários darão pronto ao locador 15 milheiros de telhas do tipo comum do comércio.

As carroças, os animais indispensáveis e necessários para o perfeito e contínuo trabalho da olaria, eram por conta e risco dos locatários.

Outro negócio que foi feito nos mesmos termos, foi no km 21, entre o locador Francisco Guzzo e o locatário Ferdinando Riccki.

A Chácara no Km 21 da E.F. Sorocabana, com 70 mil m²: frente para a estrada que vai a Barueri, hoje avenida dos Autonomistas, de um lado com terrenos pertencentes a Henrique Bianccki e do outro lado a Cia Wistein; pelos fundos, com o Rio Carapicuíba. Arrendamento por 10 anos.

Ferdinando, por força do contrato celebrado com Francisco, ficava obrigado a fabricar tijolos com o barro retirado do imóvel e entregar ao locador.

No caso desta olaria do Km 21, a "lenha para a queima dos tijolos será cortada na mata do imóvel descrito e o transporte será feito pelo locador, bem como a manutenção dos animais para transporte".



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O Clube Atlético e seu Financista


Foi o Coronel Delfino Cerqueira que em 1925 emprestou ao presidente do Clube Atlético, Dante de Lúcia, 12 contos de Réis, o que era muito dinheiro na época. O dinheiro deveria ser utilizado pelo clube para construir sua sede na antiga Rua André Rovai, hoje Erasmo Braga.

O dinheiro foi para pagar ao empreiteiro José Rodrigues. O clube passaria a ter outras dependências no mesmo loteamento na Rua "O", esquina com Rua "Q". Dez metros de frente por 50 da frente aos fundos, entre os lotes 66, fundos do lote 67 ao lado. Alguma coisa saiu errada e o clube teve que devolver o dinheiro com quase 10 anos de atraso, para a viúva do Coronel.

Assim, podemos concluir que nada do que foi vivido pelos munícipes da capital deixou de ter seu "eco" no distrito de Osasco.

O desenvolvimento econômico, a vanguarda cultural, a ocupação urbana e populacional também aconteceram em Osasco. E só para começar a nova década (1931), o distrito e a capital iniciam com a sua população triplicada e com isso Osasco sai dos seus 4 mil habitantes em 1920 para 10 mil em 1930.



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O Getulismo é Filho da Revolução


Após as eleições de 1º de março de 1930, que deram a vitória a Júlio Prestes, O Estado de S.Paulo denunciou "fraudes... comunicadas ao Partido Democrático". Na edição de 25 de outubro de 1930, o jornal mudou subitamente de posição, abrindo o noticiário com a frase "O Brasil respira". Sua adesão ao movimento revolucionário só se manifestou no momento em que Washington Luís era deposto.

Nascia um novo grupo de jovens políticos que se uniram em torno do levante, dentre os quais se destacavam Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Flores da Cunha, Lindolfo Collor, João Batista Luzardo, João Neves da Fontoura, Virgílio de Melo Franco, Maurício Cardoso e Francisco Campos.

Além de derrubar o governo, esses líderes pretendiam reformular o sistema político vigente. Dos tenentes que haviam participado do movimento tenentista, os nomes de maior destaques eram Juarez Távora, João Alberto e Miguel Costa. Este último veio a integrar o comando da Força Pública em São Paulo e, depois, no Exército, passou pelo Quartel de Quitaúna. A meta particular do grupo revolucionário era fazer reformas sociais, mas também centralizar o poder.

Em 3 de outubro, sob a liderança civil Getúlio Vargas - ainda que usasse farda nesse período - e sob a chefia militar do tenente-coronel Góes Monteiro, começaram as ações militares. Simultaneamente, deu-se início à revolução no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e no Nordeste, que passaram a ser os três pilares do movimento.

Com a ocupação de Capitais estratégicas, e com o deslocamento das forças revolucionárias gaúchas em direção a São Paulo, o presidente Washington Luís recebeu o ultimato de um grupo de oficiais-generais, liderados por Augusto Tasso Fragoso. O grupo exigia a renúncia do presidente. Diante de sua negativa, os militares determinaram sua prisão e o cerco do palácio Guanabara, no dia 24 de outubro.

Em virtude do maior peso político que os gaúchos tinham no movimento e graças à pressão das forças revolucionárias, a Junta decidiu transmitir o poder a Getúlio Vargas. Num gesto simbólico que representou a tomada do poder, os revolucionários gaúchos, chegando ao Rio, amarraram seus cavalos no obelisco da avenida Rio Branco. Em 3 de novembro, chegava ao fim a Primeira República e começava um novo período da história política brasileira, com Getúlio Vargas à frente do Governo Provisório. Era o início da Era Vargas.



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Início da Era Vargas


A Revolução despertou a necessidade de se pôr em prática uma nova política social no país. A criação do Ministério do Trabalho, menos de um mês depois da vitória do movimento revolucionário, indicava a disposição do Governo Provisório de alterar os rumos da política trabalhista, previdenciária e sindical até então adotada.

Na avaliação de membros do governo revolucionário, chegara o momento de abandonar a postura vacilante e defensiva dos governos anteriores frente à questão social e estabelecer um novo tratamento para um problema que voltava a preocupar as autoridades. A crise econômica continuava a ceifar empresas e empregos; eclodiam greves e manifestações contra a fome em importantes cidades, ao mesmo tempo em que crescia a ação sindical.

O Governo Provisório sabia da necessidade que havia de ação em detrimento da costumeira repressão às manifestações operárias. Impedir, à bala, as comemorações do 1º de maio era coisa da República Velha.

No editorial de 29 de março de 1931, o jornal O Estado de S.Paulo declarava: "o operariado deve estar contente. O decreto federal que regula aquilo que se chamou 'a sindicalização' satisfaz às suas aspirações mais importantes.

Todos os seus direitos são protegidos com ânimo generoso, ficando eles ao abrigo de perseguições e injustiças. É provável que os patrões não experimentem o mesmo júbilo. O decreto põe-lhes várias restrições ao exercício dos seus dns, Dráusio e Camargo - foram usadas para designar uma sociedade secreta, MMDC, que tramava a derrubada do governo.

No dia 9 de julho, o movimento revolucionário ganhou as ruas da Capital e do Interior de São Paulo. Na linha de frente das forças rebeldes estavam remanescentes da Revolução de 1930, como Bertoldo Klinger, Euclides Figueiredo e até mesmo o antigo líder do levantes de 1924, Isidoro Dias Lopes. A revolução teve apoio de amplos setores da sociedade paulista.

Pegaram em armas intelectuais, industriais, estudantes e representantes de outros segmentos das camadas médias, políticos ligados à República Velha ou ao Partido Democrático. O que os movia era principalmente a luta antiditatorial.

A luta armada dos constitucionalistas ficou restrita ao Estado de São Paulo. Os governos do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, que a princípio viam com bons olhos a campanha pela constitucionalização, resolveram não enfrentar a força militar do governo federal. Isolados, os paulistas não tiveram condições de manter a revolução por muito tempo. Em outubro de 1932, assinaram a rendição.

No período seguinte, Vargas emitiu dois sinais claros de que estava disposto a uma nova composição política com os paulistas. Nomeou interventor o civil paulista Armando de Sales Oliveira (agosto de 1933) e adotou medidas que permitiram o reescalonamento das dívidas dos cafeicultores em crise.

No governo de Armando Sales, as elites políticas paulistas procuraram se reorganizar. O novo interventor teve um papel decisivo nesse processo, reconstruindo o aparelho administrativo paulista, destroçado após anos de instabilidade política. Mas sua principal obra foi no campo da cultura, com a criação da Universidade de São Paulo (USP), que, em pouco tempo, se tornaria responsável pela formação de uma nova elite político-intelectual destinada a influir no futuro do Estado e do país.



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Na Revolução de 30 Nasce o Movimento Constitucionalista


O desconforto que gerou o movimento constitucionalista de 1932 nasceu com a Revolução de 1930. Ela depôs um paulista, o presidente Washington Luiz, e impediu a posse do também paulista Júlio Prestes como seu sucessor. Eram ambos dirigentes do Partido Republicano (PRP), que obviamente foi empurrado para oposição.

A interventoria de São Paulo foi assumida pelo general Hastinfilo de Moura. Ele simpatizava com o Partido Democrático (PD), força política menos compromissada com a oligarquia e partidária do voto secreto e da modernização política.

Mas tanto o PD quanto o PRP sentiram-se humilhados quando Getúlio, chefe do governo provisório, indicou como sucessor de Hastinfilo o tenente João Alberto. Outro militar da geração do tenentismo, Miguel Costa, assumiu o comando da Força Pública, atual Polícia Militar.

Tudo isso ocorreu em fins de 1930. Caracterizava-se o conflito entre: os tenentes - partidários de uma modernização pilotada por um regime centralizador - e o PD e o PRP, que formularam, cada um a seu modo, duas reivindicações: O comando político de São Paulo para os paulistas; e o restabelecimento da ordem constitucional.

As duas reivindicações estavam acopladas à viabilização de um Brasil confederado, em que São Paulo exerceria sua autonomia econômica e política. O patriotismo regionalista era insuflado pela oligarquia do café, que temia a perda de controle sobre um produto que sofria os efeitos da crise mundial. O "paulistanismo" tinha ainda como chamativo o contraste entre a situação prefalimentar das finanças do Estado e o fato de só 20% dos impostos aqui arrecadados retornarem sob a forma de benefícios da União.



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Ventos Constitucionalistas Sobre 1932


O jornal O Estado de S.Paulo havia sido a base política do regime da Primeira República e, por isso, era visto por vários membros do Governo Provisório como um potencial foco oposicionista. Lideranças civis e militares pressionaram Getúlio Vargas para que não deixasse o governo estadual nas mãos do Partido Democrático de São Paulo, alegando que o mesmo havia apoiado a Aliança Liberal e a Revolução de 1930, mas não se envolvera diretamente nas ações revolucionárias.

Diante dessas pressões, Vargas terminou por indicar para os cargos de interventor e comandante da Força Pública de São Paulo os líderes tenentistas João Alberto e Miguel Costa.

A exclusão do Partido Democrático teve como principal resultado o início de uma campanha de mobilização da sociedade paulista. As lideranças políticas que ficaram de fora da revolução, mas não foram caçadas, exigiam do Governo Provisório a imediata reintegração do país em um regime constitucional. Essa reivindicação era rechaçada pelos "tenentes", interessados em manter um governo arbitrário com a desculpa de, com isso, promover mais facilmente as mudanças que consideravam necessárias. Durante o ano de 1931, o Governo Vargas manteve-se muito próximo dos ideais “tenentistas”, a ponto de se poder dizer que o Brasil era o país dos "tenentes".

A campanha constitucionalista fez sua primeira vítima em julho de 1931. Sem condições de governar, o interventor João Alberto renunciou. Foi o estopim para um período de intensa luta política entre os diversos grupos que buscavam o poder em São Paulo. Em um curto espaço de tempo, foram indicados diversos interventores, que caíam com a mesma facilidade com que subiam. Essa instabilidade se transformava cada vez mais em problema político nacional, pois diariamente ultrapassava as fronteiras do Estado. Qualquer medida do Governo Provisório no sentido de atender ou não às reivindicações paulistas tinha repercussões graves na política nacional. Setores políticos gaúchos e mineiros emprestaram solidariedade à campanha constitucionalista, sem, no entanto, romper com o governo de Vargas.

No final de 1931 e início de 1932, Vargas procurou conter as críticas formando uma comissão, presidida pelo ministro da Justiça Maurício Cardoso, encarregada de organizar o novo Código Eleitoral. Em fevereiro de 1932, o Código Eleitoral foi publicado e um novo interventor nomeado para São Paulo, o civil e paulista Pedro de Toledo. Os sinais de trégua emitidos por Vargas, porém, não arrefereceram os ânimos. Formou-se a Frente Única Paulista (FUP), cujos principais lemas eram a constitucionalização do país e a autonomia de São Paulo.

Em maio de 1932, Vargas marcou as eleições para dali a um ano. A medida não teve resultados práticos no sentido de conter a conspiração política, que, naquele momento, já corria solta. Osvaldo Aranha, ministro da Justiça, veio a São Paulo negociar uma composição apaziguadora do secretariado paulista. Mas, no mesmo dia, foram empastelados dois jornais leais a Getúlio: "A Razão" e "Correio da Tarde". Segue-se um conflito de rua em que morreram quatro acadêmicos de direito (Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo), com os quais São Paulo já tinha seus mártires e também a sigla MMDC. Uma reunião no restaurante Policipo e outra no Clube Comercial estruturaram o levante.

Em 9 de julho, 23h30: o comando da 2ª Região Militar se rebela. Apodera-se das duas emissoras de rádio paulistanas. A Companhia Telefônica e os correios caem em mãos dos revolucionários. A Faculdade de Direito começa a alistar civis voluntários. A Escola Politécnica distribui professores e alunos por indústrias metalúrgicas para a fundição de armas e produção de munição.



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Assembléia Nacional Constituinte de 1934


No começo de 1933, a campanha eleitoral para a Assembléia Nacional Constituinte tomou conta do país.

As forças políticas se reorganizaram para aquela que seria a primeira eleição desde a vitória da Revolução de 1930.

Novos procedimentos haviam sido introduzidos pelo Código Eleitoral de 1932: o voto secreto, o voto feminino - pela primeira vez na história brasileira - e a Justiça Eleitoral, encarregada de organizar e supervisionar a eleição política. O Código previa ainda a formação de uma bancada classista, composta por representantes de funcionários públicos, empregados e empregadores, eleitos por delegados sindicais.

O Governo Provisório tratou de tomar iniciativas para conduzir os trabalhos da Assembléia conforme os seus interesses. Criou uma Comissão Constitucional que elaborou um anteprojeto de Constituição, o qual foi entregue aos constituintes para ser discutido e emendado. Coube também ao governo a elaboração do Regimento Interno da Constituinte, ou seja, do conjunto de regras que iriam reger o funcionamento da Assembléia. Com essas medidas, o governo procurava intervir tanto no conteúdo dos debates como no seu encaminhamento.

A formação de uma bancada fiel ao governo ficou a cargo do ministro da Justiça, Antunes Maciel, que promoveu uma intensa articulação política junto aos grupos oligárquicos regionais. O governo esperava também contar com o apoio de setores expressivos da bancada classista, que teria 40 representantes num total de 254 constituintes. Os votos a favor das propostas governistas deveriam vir principalmente dos representantes dos trabalhadores, eleitos por sindicatos legalizados pouco antes pelo ministro do Trabalho, Salgado Filho.

Lideranças tenentistas que participavam do governo ou estavam próximas dele também buscaram reunir forças para enfrentar os embates políticos da Constituinte. Para isso, contaram com o apoio do interventor no Distrito Federal, Pedro Ernesto, que criou o Partido Autonomista, e do interventor em Pernambuco, Lima Cavalcanti, responsável pela criação do Partido Social Democrático.

Já em outros Estados, mais distantes da influência tenentista, os grupos políticos trataram de formar novas frentes ou partidos regionais. Em São Paulo, o Partido Democrático e o Partido Republicano Paulista uniram-se na Chapa Única por São Paulo Unido.

No Rio Grande do Sul, Flores da Cunha organizou o Partido Republicano Liberal; em Minas Gerais, Gustavo Capanema e Antônio Carlos de Andrada fundaram o Partido Progressista. Finalmente, entre as forças que participaram das eleições, destacou-se a Igreja Católica, que tinha no Centro Dom Vitalum um núcleo de debates e difusão de idéias e, para a ocasião, organizou a Liga Eleitoral Católica.

As eleições aconteceram em maio de 1933, e deixaram clara a vitória dos grupos políticos regionais. Os "tenentes" obtiveram fraca votação. Dois meses depois, as entidades de classe indicaram os representantes classistas. Entre os 254 constituintes, foi eleita uma mulher: a médica paulista Carlota Pereira de Queirós, que intensificou a luta pela participação política feminina.

A Assembléia Nacional Constituinte instalou-se em novembro de 1933. O confronto entre regionalismo e centralização política dominou os debates que então se iniciaram. Enquanto os Estados do Norte e Nordeste, mais fracos economicamente e dependentes do governo federal, defenderam o centralismo, os Estados do Centro-Sul reivindicaram maior autonomia em relação ao poder central.

Após oito meses de discussões, finalmente, no dia 16 de julho de 1934, foi promulgada a nova Constituição. A importância dos Estados foi assegurada pela vitória do princípio federalista. Ao mesmo tempo, ampliou-se o poder da União nos novos capítulos referentes à ordem econômica e social.

As minas, jazidas minerais e quedas d'água deveriam ser nacionalizadas, assim como os bancos de depósito e as empresas de seguro. No plano da política social, foram aprovadas medidas que beneficiavam os trabalhadores, como a criação da Justiça do Trabalho, o salário mínimo, a jornada de trabalho de oito horas, férias anuais remuneradas e descanso semanal. Mas o governo sofreu uma importante derrota, com a aprovação da pluralidade e da autonomia sindicais em lugar do sindicato único por categoria profissional.



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Um Estado Novo Para Vargas


história

Getulio Vargas

Com a eleição indireta de Getúlio Vargas para o cargo de presidente da República pela Assembléia Nacional Constituinte, em 17 de julho de 1934, terminou o período de governo discricionário iniciado em novembro de 1930. Mas o novo governo constitucional não foi nem longo nem tranqüilo.

O movimento social se tornou cada vez mais efervescente,.Greves operárias e manifestações da classe média surgiram em diversos Estados e, gradativamente, a atividade política foi se radicalizando. O Poder Legislativo abria mão de suas prerrogativas, enquanto o Executivo se tornava cada vez mais forte. Esse processo culminou, em 10 de novembro de 1937, com o golpe do Estado Novo, pelo próprio presidente Vargas, que implantou no país um regime ditatorial.

Três anos depois, antes mesmo da primeira eleição que elegeria o novo presidente, Getúlio Vargas deu um golpe para manter-se no poder e instaurou uma ditadura, conhecida como Estado Novo. Assim, em 10 de novembro de 1937, foi outorgada uma nova Constituição, idealizada e redigida pelo ministro da Justiça, Francisco Campos.



A nova Carta incluía dispositivo semelhante aos encontrados em constituições de regimes autoritários vigentes na Europa, como as de Portugal, Espanha e Itália. Com o Congresso Nacional fechado e a decretação de rigorosas leis de censura, Vargas conseguiu conduzir o país sem que a oposição pudesse se expressar de forma legal. Os construtores desse novo Estado acreditavam que era preciso deixar para trás aquilo que seria o causador de todos os males da nação: o liberalismo. Para eles, a decretação do Estado Novo era o complemento da Revolução de 1930, cujos ideais estavam sendo traiçoeiramente atingidos pela Constituição liberal de 1934.

A crise da liberal-democracia exigia uma solução que somente um poder forte, autoritário, teria condições de oferecer. O intervencionismo estatal iniciado em 1930, ainda que de forma não ostensiva, seria intensificado e se tornaria a marca dos novos tempos.

O desenvolvimento econômico por meio da industrialização era a grande meta Estado Novo e, para viabilizar esse propósito maior, foram criados vários órgãos de apoio em áreas estratégicas, como, por exemplo, o Conselho Nacional do Petróleo, o Conselho Federal de Comércio Exterior e a Coordenação de Mobilização Econômica - instituída em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.



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1939: Segunda Inspeção Sanitária em Osasco


Apesar de todas as dificuldades vividas pelo país na década de 30, o distrito de Osasco mostrou um pequeno avanço social e econômico, e isto está expresso no relatório da inspeção sanitária de 1939.

O autor do relatório desta segunda inspeção foi o Dr. José Luiz Domingues Alexandre.

O distrito, nessa década, era composto das Vilas Osasco, Bussocaba, Jardim Belo Horizonte, Quitaúna, loteamento feito pelo Coronel Delfino Cerqueira a partir de 1930, como é o caso do lote vendido a José Rodrigues, localizado na rua 4, lote 13.

Quartel de Quitaúna, Mutinga, que teve a Vivenda Zanardi arrendada por seu proprietário Emílio Zanardi em 1931 a Jacomo Bonetia, Valentim Bonetia e Pedro Bonetia, para que os arrendatários cuidassem de cultivar e plantar a propriedade. Piratininga teve vendida uma área de 24 mil metros quadrados a Benedito Weischenfelder, em 1937, que precisou vender mil metros em 1938 para poder investir nas terras que restaram.

Nessa década, quem realmente se consolidou e se firmou como loteamento populoso foi Presidentes Altino, que ganhou estação de trem com mesmo nome em 1921. A inauguração contou com a presença do governador Altino Arantes. Antes da estação, esta planície aluvional era conhecida como chácara do Rio Pequeno. Depois, foi chamada pelo povo de Cerâmica, por causa do seu loteador, a Cerâmica Industrial Osasco. E na década de 30, alguns novos moradores ainda chamavam o local de Várzea, até porque, de fato, é uma várzea do rio Tietê. A luz elétrica chegou ao distrito em 1930.

O recenseamento estadual de 1934 contou uma população de 12.091 habitantes - três vezes mais que em 1920, quando distrito contava com 4.118 habitantes.

Topografia, segundo a inspeção sanitária de 1939 e sem que as obras de correção do leito e margens do rio Tietê tenham sido iniciadas: para o Dr. José Luís Alexandre, o distrito se dividia em duas zonas. “Uma alagadiça circunda o rio Tietê e atravessa o distrito de este para oeste; outra cortada por pequenas colinas, secas, poeirentas, onde se encontra o conglomerado residencial. A primeira, por ocasião das enchentes, encontra-se sempre encharcada, mantendo pequenas lagoas. Focos de mosquitos se mantêm durante algum tempo após a descida do rio. A segunda se mantem sempre relativamente seca e, mesmo durante as enchentes e grandes chuvas, apresenta escoamento fácil das águas. O distrito é atravessado pelo rio Tietê, que faz um semi-círculo em “ferradura”, exatamente na parte da região central em cuja abertura está a área mais povoada”.

Bairros em fase de loteamento, segundo esta inspeção: Osasco, Vila Osasco, Vila Bussocaba, Jardim Belo Horizonte, Vila Militar, Quitaúna, Mutinga e Piratininga. Existiam balsas para a travessia do rio Tietê.

A população é composta por italianos, balcânicos, anglo-saxões, russos, poloneses, armênios, poucos alemães, alguns sírios e suecos.

Em 1938, as condições de vida coletiva, sanitária, educacional e comercial, permaneciam estacionária. A organização sanitária não existia, com exceção das grandes industrias.

As companhias empregadoras mantêm serviços de reabastecimento de alimentos, água e luz nas vilas residenciais organizadas, o que faz o inspetor comodamente concluir que: “logo, o operário que aí mora não precisa recorrer ao comércio local.Cria-se assim um círculo vicioso. Bairro de operários, portanto, população numerosa e recursos progressistas em decadência”.

A Cia. Cerâmica Industrial Osasco empregava 230 operários e a fábrica de tecidos Beltramo, 180 homens e 220 mulheres.

Sobre a saúde, escreveu: “O distrito compõe-se quase que exclusivamente de operários, e justamente esta classe é que mais irregularmente se alimenta, bem como tem as piores condições de higiene. Mortalidade por diarréia e enterite em menores de 2 anos: 554 óbitos. Maiores de 2 anos perfazem um total de 52 óbitos/ano.

Moléstias de Maior Incidência

Diarréia e enterite em menores de 2 anos = 554

Afecções do aparelho circulatório = 175

Bronco pneumonia = 151

Aneurisma ou Arteriosclerose = 107

Aparelho respiratório = 104

Drs. Alcides de Oliveira Guimarães e Caetano Juvellia são proprietários de pequenas clínicas particulares e moram no local. Dr. Ari Doria também tem clínica no distrito, mas não mora nele.

Condições sanitárias do Distrito:

- Problemas da água:

“Água encanada é privilégio das indústrias. Abastecimento residencial por poço”. “As fossas sanitárias ficam nas imediações dos poços e muitas vezes pegadas às fossas. Estando esta em local mais alto que o poço, o que mais que justifica o alto índice de mortalidade infantil por diarréia".

"A Cia. Cerâmica Industrial Osasco tem poço artesiano de 49 metros, com rendimento de 12 mil litros/hora. A extração é feita por bomba que recolhe a água em uma caixa de 45 mil litros. Desta água, a população se serve em uma torneira instalada na frente do prédio.

A fábrica de tecidos Beltramo & Cia. tem poço com 70 metros, com capacidade de 14 mil litros/hora, e a caixa central com 60 mil litros/hora. Nesta fábrica, também há uma torneira no lado de fora para uso da população.

A Cia. Continental utiliza para lavagens esgotos e limpeza geral água retirada do rio Pinheiros. Para uso industrial, a companhia tem poço artesiano.

A Fábrica de Papelão usa água do córrego 'Boy-Cicaba' e tem também um poço de pouca profundidade.

Água da Vl. Militar do Quitaúna é do córrego Carapicuíba e Ibimirim. Como a água do primeiro é melhor, foi represada e passa por uma filtragem grossa. Em 1935, foi inaugurada a piscina da Vl. Militar, medindo 25 metros por 12 metros".

- Problemas da falta de esgoto no distrito:

"Fossa de simples escavação, sob a qual se instala um caixão perfurado e assento.

Os escretas aí depositados entram em decomposição, fermentam e a parte líquida é absorvida. O resíduo muito pequeno vai servir de pasto aos insetos. Assim, também pela infiltração, há o contágio das águas dos poços.

De algumas fossas, sai uma vala que se dirige às plantações, por isso, é melhor chamá-las de 'coletor de esterco'.

Em outra fossa, o seu estado deplorável não surpreende. Porém, seu esgoto atravessa uma vala aberta, uma ponte e cruza a avenida. Atraídos pelo odor, encontra-se grande quantidade de galinhas bicando a fossa.

Com exceção da Cia. Cerâmica Industrial Osasco, todas as demais têm serviço de esgoto encanado. O esgoto da Cia. Continental deságua no rio Pinheiros, na parte mais distante do terreno da empresa. Na Vl Militar do Quitaúna, o esgoto vai para o rio Tietê.

O esgoto da fábrica de papelão vai para o córrego 'Boy-Cicaba' e, daí, para o rio Tietê. Porém, atravessa o terreno da fábrica, a céu aberto".

- Problemas do Lixo:

"Presentemente, é o lixo atirado ao terreno mais próximo, onde as galinhas se incumbem de espalhá-lo".

- Escolas

"Existem três escolas e um grupo escolar. Duas escolas na Vl Osasco e uma em Presidente Altino. Nas escolas, as mais simples regras de higiene foram esquecidas. O grupo escolar ficava na rua Primitiva Vianco, próximo ao Largo de Osasco. A casa que abrigou o grupo escolar era de Delfino Cerqueira, que a conservava. O prédio é composto de cinco salas muito pequenas para o número de crianças: 43 em cada sala. As salas medem 4 metros por 6,5 metros. O gabinete do diretor é uma pequena divisão de madeira no canto de uma das salas. As crianças de avental branco, descalças, somam um total de 651 matriculadas.

A caixa d’água deveria ligar-se ao poço por bomba manual. No entanto, não é mais que um foco de mosquitos.

As adaptações sanitárias são precárias, constando de três privadas e um mitório, cuja higiene é relativa, pois há falta de água.

Em Osasco, existem perto de mil crianças que necessitam de instrução primária".

- Indústrias locais:

"Fábrica de Fósforo, fundada no fim de 1930".

Como se pode observar pelas anotações feitas pelo segundo inspetor, o distrito de Osasco continuava na década de 30 com os mesmo problemas urbanos que tinha na década anterior. A grande diferença, certamente, foi fato de a população ter triplicado, o que deveria colocar as dificuldades urbanas em evidência ainda maior.

Durante toda essa década, também só houve acréscimo da indústria de fósforo; as demais já estavam na década anterior.



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O Brasil do Pós Segunda Guerra


O desenvolvimento econômico através da industrialização era a grande meta do Estado Novo e, para viabilizar esse propósito maior, foram criados vários órgãos de apoio em áreas estratégicas, como por exemplo, o Conselho Nacional do Petróleo, o Conselho Federal de Comércio Exterior, e a Coordenação de Mobilização Econômica - esta, instituída em 1942, com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial.

O Estado Novo parece ter nascido, vivido e morrido sob a égide das transformações mundiais. Se o florescimento de regimes autoritários na Europa encorajou o Presidente Vargas a instaurar no país um regime político autoritário, esse mesmo regime conheceu o apogeu e a queda sob a influência da Segunda Guerra.

A queda repentina das exportações de produtos agrícolas brasileiros, como o café, o cacau e a laranja, e a escassez de produtos essenciais importados, como o carvão, a gasolina, o óleo combustível e máquinas, exigiram uma resposta industrializante. Mas o país precisava de auto-suficiência no setor siderúrgico para poder acelerar o processo de industrialização. O apoio americano para a criação de uma grande companhia siderúrgica veio em troca do apoio brasileiro aos países aliados.

Da mesma forma que a guerra possibilitou o desenvolvimento da indústria de base, a partir da instalação da Companhia Siderúrgica Nacional em 1941, ela provocou também, ainda que indiretamente, o fim do regime ditatorial. Com a vitória dos aliados, tornava-se difícil manter no Brasil um regime autoritário. Afinal, o país havia emprestado seu apoio à causa internacional da democracia. As pressões internas se faziam sentir, com manifestações em diferentes estados, desde outubro de 1943, quando foi divulgado o Manifesto dos Mineiros, documento em defesa das liberdades democráticas assinado por intelectuais, profissionais liberais e empresários.

Getúlio Vargas soube avaliar as dificuldades que teria para manter um governo ditatorial e começou a ceder. Assim, nos primeiros meses de 1945 foram marcadas eleições para dezembro, foi decretada a anistia e teve início o processo de reorganização dos partidos políticos, com a indicação de candidatos à presidência da República. Nessa mesma época, teve início um movimento que pregava a "Constituinte com Getúlio". O avanço dos "queremistas" alertou os chefes militares para a possibilidade de Vargas vir a boicotar as eleições, a fim de se manter no cargo. Com o intuito de evitar tal investida, em 29 de outubro de 1945, Vargas foi deposto pelas forças militares, chefiadas pelo ministro da Guerra, general Góes Monteiro. Interinamente, assumiu a presidência da República o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares.

Realizadas as eleições em dezembro, o general Eurico Dutra foi eleito presidente da República, selando, assim, o fim de um dos períodos da nossa história marcados pela repressão e violação dos direitos individuais.



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O Governo de Eurico Gaspar Dutra


história

Eurico Gaspar Dutra

Eurico Gaspar Dutra foi um militar brasileiro, décimo sexto Presidente do Brasil e único presidente oriundo do atual estado do Mato Grosso

A passagem de Gaspar Dutra pela presidência da república foi relativamente discreta. Não fosse pela linha dura assumida pelo seu governo em relação ao comunismo e ao movimento sindical, Dutra teria passado à história como um presidente essencialmente legalista.

Rigorosamente apegado à Constituição quando se tratava de qualquer assunto, porém ignorava a Carta Magna sempre que o assunto se referia ao PCB e às manifestações operárias.

Dutra reprimiu com severidade o Partido Comunista, que após 1945 havia ganhado terreno no interior dos sindicatos e emergia, como força eleitoral respeitável, configurando-se para total desconforto do mandatário maior da nação, no quarto partido do país.

Em maio de 1947, o Supremo Tribunal Federal caçou o registro partidário do PCB e, oito meses mais tarde, todos os parlamentares eleitos pela agremiação. Graças ao fechamento do PCB, o governo passou a intervir diretamente nos sindicatos. Com a desculpa de conter as influências comunistas nos quadros sindicais, o Estado ia "autorizadamente" desmobilizando as organizações operárias que buscavam a autonomia junto ao estado. No último ano do governo Dutra, mais de 200 sindicatos já estavam sob intervenção do Estado.


Na área econômica, Dutra adotou a política de corte liberal. Até porque o aparelho regulatório estatal, construído nos 15 anos de governo Vargas e os interesses econômicos e políticos, já cristalizados na estrutura do Estado, não permitiam outra política econômica.

A marca do governo Dutra, o Plano SALTE, (iniciais de saúde, alimentação, transporte e energia) foi um exemplo do esforço de planejamento desse período.

Um avanço lento e conservador marcou o governo Dutra, porém, neste rítmo, amadureceram elementos que foram pré-requisitos fundamentais e indispensáveis à consolidação da indústria brasileira.

Em 1947, o Estado passou a adotar um regime de contenção das importações, e passou a exigir uma concessão de licenças para compras no exterior. Essa política acabou beneficiando à indústria nacional, que havia estagnado nos primeiros anos do seu governo. E depois essa exigência, forçou a indústria nacional a produzir bens essenciais e equipamentos industriais. Porém, o nível salarial no período caiu consideravelmente em função da ação repressiva do Estado em relação ao movimento sindical.



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A Cidade de São Paulo na Década de 40


história

Francisco Prestes Maia

Francisco Prestes Maia foi um engenheiro civil, arquiteto e político brasileiro.

No dia 1º de maio de 1938 assumia a Prefeitura de São Paulo o engenheiro Francisco Prestes Maia, o mesmo que havia feito o "Estudo para um Plano de Avenidas" para o prefeito Pires do Rio, oito anos antes. Apesar de indicado oficialmente pelo interventor Adhemar de Barros, este na verdade teve que engoli-lo, pois a escolha de seu nome partiu diretamente de Getúlio Vargas.

Entre os problemas a serem enfrentados pelo prefeito, sobressaía-se a questão da circulação de 25 mil veículos nas ruelas estreitas do centro da cidade. Bondes, ônibus, automóveis, caminhões e pedestres disputavam espaço, clamando pelas avenidas desenhadas nas pranchetas.

A década de 40 foi marcada por uma intervenção urbanística sem precedentes na história da cidade. O prefeito Prestes Maia colocou em prática o seu "Plano de Avenidas", com amplos investimentos no sistema viário. Nos anos seguintes, a preocupação com o espaço urbano visava basicamente abrir caminho para os automóveis e atender aos interesses da indústria automobilística que se instalou em São Paulo em 1956.

Na administração Prestes Maia, as verbas foram bem cuidadas e empregadas na conclusão das iniciativas de Fábio Prado e no prosseguimento parcial do Plano de Avenidas. Foram sete anos em que a cidade virou um imenso canteiro de obras (1938-45). Terminou o viaduto do Chá, a Avenida 9 de Julho com seus viadutos e túneis e o Estádio do Pacaembú. Prolongou a Avenida São João e transformou em avenidas as ruas Ipiranga e São Luís. Abriu as avenidas Duque de Caxias, Anhangabaú (atual Prestes Maia), Liberdade, Vieira de Carvalho, Senador Queirós e o primeiro trecho da Itororó. Construiu os viadutos Jacareí, Dona Paulina, 9 de Julho e a Ponte das Bandeiras, sobre o Rio Tietê.



A interligação de viadutos e avenidas permitiu uma circulação no entorno do centro, nos moldes de um pequeno anel viário, denominado no "Plano de Avenidas" como "perímetro de irradiação", uma idéia original de Ulhoa Cintra. Admiravelmente, todas as obras foram feitas com recursos municipais, administrados pessoalmente por Prestes Maia.

Simultaneamente, a cidade cresceu de forma desordenada em direção à periferia, gerando uma grave crise de habitação, na mesma proporção, aliás, em que as regiões centrais se valorizaram servindo à especulação imobiliária.

Assim que assumiu a Prefeitura, Prestes Maia criou, em fevereiro de 1939, a Comissão de Estudos de Transportes Coletivos do Município de São Paulo - CETC, incumbida de desenvolver um grande plano integrado e global de transportes urbanos, concebido em 1943. Essa comissão foi responsável pela elaboração de um recenseamento do transporte coletivo em todos os distritos em que se dividia a cidade, identificando os meios de transporte.

Realizou pesquisa do tipo sobe/desce nos ônibus e bondes, por faixa horária. Os resultados destas pesquisas foram cruzados com os números de habitantes dos distritos, assim como a origem e o destino.

Como a Light já tinha manifestado, em 1937, a sua intenção de não prosseguir na exploração dos serviços de bonde após 1941, quando terminava o prazo de sua concessão, a principal tarefa da CETC foi apresentar um plano que permitisse à Prefeitura assumir o monopólio da administração dos transportes.

Em agosto de 1946, todo o patrimônio da Ligth, isto é, bondes e lotações, passaram a pertencer à CMTC, Cia. Municipal de Transporte Coletivo, que se encontrava em processo de organização, ficando a Light como uma das maiores acionistas, uma vez que o patrimônio foi adquirido com ações da nova companhia. A partir da criação da CMTC, a frota original da Light foi ampliada, pois a original foi considerada insuficiente para iniciar a operação, fato este que ocorreu em 1º de julho de 1947. No final de 1949, passou a operar os primeiros tróleibus e adquiriu os primeiros 200 ônibus a diesel. A situação de quase monopólio da operação do transporte público pela CMTC perdurou até 1957, quando as empresas particulares retornaram ao setor, operando linhas antes operadas pela empresa municipal.



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A Vida em Osasco nos Anos 40


Nada muda da noite para o dia e o distrito de Osasco vivia as mesmas dificuldades do Brasil. Porém, algumas mudanças começam a acontecer. É o caso do número de habitantes no distrito, que começa a década com 15.258 e termina com 41.328. Em uma década a população quase que triplica.

Três grandes indústrias se instalam praticamente no centro da cidade.

Indústria Elétrica Brown Boveri S/A. Ao lado desta, a Eternit do Brasil Cimento Amianto S/A e a mais distante das duas anteriores, porém mais próxima do centro e que ainda hoje está na cidade, a Indústria de Artefatos de Ferro - CIMAF. Estas se somam as que já estavam nas décadas anteriores como a Frigorífico Wilson do Brasil S/A, que passa a ocupar as instalações do antigo Frigorífico Continental. A Hervy S/A que passa a ocupar as instalações da Cerâmica Industrial Osasco. O Cotonifício Beltramo, que ocupa as instalações da antiga Fábrica de Tecidos Hernique Dell Ácqua. E ainda a Cia. Sorocabana de Material Ferroviário - SOMA, onde hoje está a oficina da CPTM.

A instalação destas indústrias comandou o incessante processo de atração de imigrantes e conseqüentemente de povoamento, não só do distrito como de toda a região.

Além das grandes indústrias, o comércio se mantinha estável no distrito pois as grandes indústrias mantinham suas cooperativas de abastecimento. Nos bairros em formação, no entanto, este comércio era de comerciantes. É o caso da Casa Rosa, que ficava no loteamento da Vila Yolanda na Av. Delfino Cerqueira.

Haviam loteamentos que prosperavam na sua venda, construção e ocupação. É o caso do Centro, a área mais cara do distrito; Presidente Altino, o mais densamente povoado; Km 18, que estava começando a ser povoado; Jd. Santo Antônio, que era o loteamento mais barato por ser considerado fora do perímetro urbano, ou seja área rural; Vila Quitaúna, que era um dos mais antigos, porém, depois da construção da estação de mesmo nome em 1925, havia se tornado bastante habitável e as Vilas Osasco e Bussocaba, que eram as mais recentes na zona sul. Na zona norte, o mais antigo loteamento é o da Vila dos Remédios. Após, veio o Piratininga, seguido do Jd. Helena Maria e Jd. Rochdale. Porém, estes dois últimos só chegaram a conquistar arruamento na década de 50, ainda que em 1940 acontecesse a demarcação das terras para viabilizar o futuro arruamento. É o caso das terras de Patrício Camargo e sua mulher Antônia de Oliveira Camargo , Vicente Sirol, Antônio Sirol, Virgílio Sirol e o russo Nicolau Maievsky. Todos são proprietários de sítios no bairro do Mutinga, limitando-se com propriedade do primeiro, Patrício Camargo, de um lado com uma estrada particular que serve a Vila Idalécia. Transcrita pelo agrimensor Emiliano Martins.

No ano seguinte, este mesmo agrimensor consegue demarcar o outro lado do hoje conhecido como Av. Mutinga e deixa a demarcação registrada em escritura pública no cartório: "Benedita de Camargo que divisa de um lado com a família Rovai, de outro com Ernesto de Camargo e na frente com estrada que vai para Parnaíba. Divisa com Vicente Sirol e Irmãos.

De particular a pública, as estradas foram abrindo espaço para efetivar os loteamentos. Já no centro do distrito, o investimento era em construção de moradias, como está na escritura de empreitada que data de 18 de outubro de 1946, onde o Dr. Caetano Juvele, médico, brasileiro, casado, residente na Rua da Estação n° 59, contrata a construção de sete prédios de acordo com a planta, a serem construídos por José Fernandes Gonçalves, industrial, brasileiro, residente na Rua André Rovai n° 13 . O Dr. é dono de 627 metros quadrados na Rua Primitiva Vianco. As casas em construção destinam-se à venda. A medida em que as casas fiquem prontas, serão vendidas e o lucro dividido em partes iguais.

Há também quem deixe seu negócio para os filhos e faça escritura pública para sacramentar o negócio. É o caso do casal Vitório Vanucci e Iracci Vanucci, que doaram a Otávio e Antônio Vannucci a oficina mecânica com maquinários e ferramentas, situada na Rua Primitiva Vianco n° 9. Outro fator que trouxe desenvolvimento urbano e social para a região foram as linhas de ônibus, que ligavam Carapicuíba e Osasco à São Paulo. Através destas linhas, começou a demanda da ocupação urbana nos subúrbios, já formados como Carapicuíba e Barueri.

O ônibus trouxe uma nova condição de ocupação territorial, que favoreceu muito as ações imobiliárias. E com isso, os sítios se tornaram loteamentos. Assim, é nesta década que se inicia a ocupação urbana que já não se restringe apenas aos trechos próximos à ferrovia.



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A Mulher e o Feminismo em Osasco


Por volta de 1914 surgem no país as sufragistas, que viriam a ser lideradas por uma mulher, paradoxalmente identificada com a fina-flor da elite econômica e intelectual da época, a bióloga Bertha Lutz. Ela representa "feminismo bem-comportado": Bertha freqüentava os círculos do poder dominado por barões e coronéis, não perdia as festas repletas de "coquetes e melindrosas"' no Automóvel Clube do Rio de Janeiro e desfrutava de prestígio dentro e fora do país.

Ela foi decisiva na luta pelo voto feminino, uma cientista que conseguiu juntar as mulheres para pressionar deputados pelo direito de votar. A intimidade com o poder facilitou o trabalho de mobilização das mulheres de cima para baixo. Bertha foi a primeira mulher a entrar no serviço público por concurso, não aceitava competidores, estava preocupada com o voto feminino, enquanto as anarquistas defendiam o amor livre.

A conquista do direito feminino de votar no Brasil aconteceu em 1932. Entre os 254 constituintes eleitos para formular a constituição de 1934, foi eleita, por primeira vez no Brasil uma mulher; a médica paulista Carlota Pereira de Queirós, que intensificou a luta pela participação política feminina.

Entre os anos 30 e 60, assistimos à emergência de um expressivo movimento feminista, questionador não só da opressão machista, mas dos códigos da sexualidade feminina e dos modelos de comportamento impostos pela sociedade de consumo.

Foi nos anos 40, em Osasco, que a mulher começou a deixar de "levar desaforo pra casa" e as escrituras de reconhecimento de filho legítimo passaram a aparecer. A primeira que está registrada no distrito de Osasco data de 16 de agosto de 1946.

Nesta data o pai João Alves Pereira, solteiro, pedreiro, residente na rua Teixeira Leite, n° 39. A mãe Mariana Maia. Nasceu a filha Marlene Maia em 10 de maio e 1938, registro feito na Bela Vista, 19° Subdistrito da Capital. Nos anos seguintes, outros pais reconheceram outros filhos.

Outra escritura que deixa claro que a mulher não aceita mais o julgo masculino e caminha para a emancipação econômica é a de autorização para comerciar que data de 11 de maio de 1948, onde Sandoval dos Reis, maior, brasileiro, militar do exército, domiciliado e residente na Rua 1 n° 44, Bela Vista deste subdistrito. Casado com Dona Alices Balderama dos Reis, brasileira 21 anos, domiciliada e residente na Rua 1 n° 44, Bela Vista, deste subdistrito, casamento realizado em Marília aos 21 de setembro de 1946, autoriza a sua mulher a que exerça pessoalmente o comércio.

Havia também mulheres que já eram empresárias e por isso podiam arrendar seus negócios. É o caso das irmãs Beltran, residentes na Rua Josephina n° 29 e 21, autorizadas por seus respectivos maridos, em 19 de fevereiro de 1941 a arrendar para Joaquim das Neves, residente em Carapicuíba, os componentes da firma Irmãs Beltran - Comércio de Retalhos, desta praça, situada na Rua da Estação n° 5 por cinco anos. Mulheres empresárias era uma outra vanguarda no país que para a vida do distrito, seria cada vez mais costumeiro.



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Osasco Entre Sub-Prefeitura e Cidade


A novíssima Constituição de 1946 trouxe uma série de vantagens aos municípios, entre elas: a posse tributária sobre licenças, impostos prediais e territoriais, impostos sobre indústria e profissões a critério das necessidades municipais, além da criação do Fundo de Participação dos Municípios. Assim, muitas obras planejadas e não executadas tornaram-se viáveis.

A União por sua vez, passou a ter o poder de criar e decretar outros impostos, mas a arrecadação advinda destes eram divididas entre os estados e municípios. Com todas estas novidades para a arrecadação municipal, foram marcadas as eleições para as prefeituras municipais em 1947, e pela primeira vez, através de voto secreto e universal para todos os maiores de 18 anos.

A região da grande São Paulo contava em 1940 com apenas dez municípios: São Paulo, Juqueri, Guarulhos, Santa Isabel, Mogi das Cruzes, Cotia, Santo André, Itapecerica, Parnaíba e Jundiaí. Graças à chegada de novos ventos soprados pela Constituição de 46, houve o início da pulverização de municípios. Muitos dos núcleos suburbanos que tiveram crescimento populacional, como Osasco, que triplicou seu número de habitantes, buscaram a emancipação. Para alcançar a emancipação os distritos, concentravam seus esforços para satisfazer os pré-requisitos da Lei Qüinqüenal, que deveria ser encaminhada para a Assembléia Legislativa do Estado.

Todo o desenvolvimento urbano experimentado pelo centro de São Paulo, pouco chegou ao subdistrito de Osasco. Assim, ao distrito não restou outra saída a não ser chamar a atenção do administrador municipal sobre suas necessidades: água encanada, luz na rua e em casa, calçamento, transporte, educação e esgoto.

Para dar visibilidade a seus reclamos os moradores resolveram se reunir em torno da Sociedade Amigos do Distrito de Osasco, SADO em 1947.

Em março iniciam-se os trabalhos da sociedade. A primeira reunião aconteceu na Rua André Rovai n° 47. O objetivo da sociedade era: "manifestar-se pela imprensa e jornais as necessidades de Osasco. Os ideais do grupo eram sem política ou religião". Ideais extremamente românticos que terminariam levando a iniciativa de buscar da emancipação do distrito para lugar algum.

A partir da Constituição de 1946, o ideal de emancipação para os núcleos urbanos emergentes passou a ter conotativo político e com isso, os distritos que se articularam politicamente se emanciparam naquela década. Um bom exemplo disso é Barueri que elegeu o Deputado Diógenes Ribeiro de Lima que residia no distrito e que trabalhou a nomeação do Deputado Cunha Bueno para presidir a comissão de emancipação da assembléia.

Enquanto isso, a SADO discutia se seria ou não aceito o convite feito ao então eleito Governador Adhemar de Barros para vir ao distrito conhecer as necessidades de seus moradores. Segundo as atas da sociedade de maio de 1947, o membro Antônio Quadros condena o movimento "político", por parte dos membros do diretório e termina com a frase "devemos agir e executar, independentemente de qualquer ação partidária". A ausência de movimentação partidária, perfeitamente compreensível pela repressão ao PCB e ao movimento sindical durante todo o governo Dutra, se reflete nas opiniões dos membros da SADO.



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A Década Começa Com a Volta do Velho Ditador


Getúlio volta ao cenário político depois de um longo estudo sobre a plataforma básica para sua campanha presidencial e decide-se pela defesa da necessidade de acelerar o desenvolvimento do país e de ampliar à proteção ao trabalhador.

Vargas é eleito pela coligação PTB-PSP com 48,7% do total de votos, contra 29,7% de Eduardo Gomes (UDN) e 21,5% de Cristiano Machado (PSD).

Claro que a UDN derrotada, apelou para o argumento da ilegitimidade da vitória de Getúlio Vargas, para tanto dizia que o presidente não conseguira obter a maioria absoluta da votação. Questão foi facilmente resolvida com uma consulta à constituição a afirmativa, maioria absoluta, não estava escrita. Entretanto, a direita política, encarnada na UDN, iniciava aí uma tradição de contestação sistemática da ordem constitucional, manifestando-se, sempre que se achassem ameaçados, ainda que de longe, os interesses da elite brasileira.

As exportações brasileiras de equipamentos industriais entre os anos de 1945 e 1951 cresceram 338%, enquanto que o total das importações aumentou apenas 83%. É um grande período de evolução para a indústria nacional. A restrição à importação dos produtos de consumo e a facilidade da importação de bens-de capital e matérias-primas favoreceram uma dupla guinada no setor industrial. Passamos de consumidores dos bens de consumo a produtores, pelo menos para o nosso emergente mercado interno.

Usando esta tendência econômica somada ao seu ideal social Vargas, lança o nacionalismo como prioridade de seu governo. O nacionalismo era um sentimento que unia os brasileiros, independente da classe social a que um indivíduo fizesse parte. Amparado no apoio das massas populares o presidente procurou fazer uma política que ressaltava a necessidade de se coibir os abusos contra a ordem econômica cometidos pelos interesses estrangeiros no país e de se promover o desenvolvimento interno, como forma de assegurar a autonomia nacional. Através da idéia propalada pelo presidente o Estado deveria intervir de forma efetiva na economia com dupla finalidade: salvaguardando os interesses da população e a soberania nacional. Isso economicamente ficou traduzido com a atuação do governo em setores estratégicos como a energia, siderurgia e comunicações. E para isso Vargas criou a Petrobrás e a Eletrobrás. Por outro lado à criação da Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda dava condições para a expansão das atividades mecânicas, lançando com isso bases para a industrialização.

O projeto nacionalista, também chamado de intervencionista ou autoritário, por se fazer de forma centralizadora, tendo o estado como instrumento condutor do processo de modernização fez com se unissem a Vargas as mais diversas vertentes políticas. A oposição ficou reservada para os liberais, que estavam unidos em torno da UDN, e que propunham a construção do progresso com base predominante na livre iniciativa.

Foi Getúlio Vargas quem criou a Comissão de Desenvolvimento Industrial, da qual participavam representantes da iniciativa privada, onde surgiu a Subcomissão de fabricação de jipes, tratores, caminhões e automóveis, iniciando o estudo da instalação da indústria automobilística entre nós, dando origem em 1956 ao GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística).

Em junho de 1952, a lei 1628 criava o BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico) destinado a mobilizar recursos para incentivar as atividades da infra-estrutura: transporte, energia elétrica e as indústrias de base.

Um mês depois, em julho seguinte, através da lei 1649, surgia o Banco do Nordeste, com a finalidade de ajudar no incremento da região nordestina, cuja estagnação se cristalizava ao longo das suas várias décadas de existência, causando um profundo mal-estar social.

A Companhia Hidrelétrica do São Francisco é inaugurada em janeiro de 1954.

Em fevereiro seguinte era inaugurado o segundo alto-forno de Volta Redonda. Com isso a produção siderúrgica nacional passava a ser de 1.200 toneladas diárias, o que representava um acréscimo de mais de 30% sobre o ano anterior.

O tratamento dado ao capital estrangeiro foi alterado em janeiro de 1953, pela lei 1.807, concedendo-lhe ampla movimentação, quer para a entrada, quer para a saída.

Foi ainda no segundo governo de Getúlio Vargas, que se concluíram os trabalhos da Comissão Mista Brasil-EUA, também conhecida como Missão Abbink, cujos trabalhos buscavam estudar a situação brasileira e oferecer um programa concreto para o seu desenvolvimento. Mas as eleições nos EUA deram vitória ao republicano Eisenhower, e com isso a Comissão foi dissolvida e o protocolo de intenções anulado. Para variar este foi um forte golpe na nossa economia, pois nos privou de financiamento norte-americano com que o governo contava para a expansão de nossas atividades. Da Missão Abbink sobrou apenas os estudos e levantamentos.

Se dê um lado, os liberais criticavam severamente a intervenção do estado no jogo econômico, de outro, os comunistas, infiltrados e uma parcela significativa dos sindicatos, insuflavam o operariado a reclamar das perdas salariais a que foram submetidos em razão do elevado aumento da inflação a partir de fins de 1952. Some-se a isso que a corporação militar se colocou em oposição a Vargas, em razão da política governamental que fazia vistas grossas às reivindicações salariais do oficialato.

O descontentamento agravou-se com a crise econômica a inflação subiu de forma assustadora para os padrões da época e também o custo de vida. O ano de 1953 foi marcado por agitação em todo o país. Em março São Paulo mobilizou 300 mil operários em greve nos mais diferentes setores, com destaque para a indústria têxtil, se estendendo por vinte e quatro dias. Em junho foi a vez de 100 mil marítimos darem a sua parada. Paralelo a toda essa confusão os jornais de oposição radicalizaram seus ataques ao presidente, não se limitando mais aos assuntos de ordem econômica, mas abrindo fogo com acusações de corrupção e clientelismo.

A partir de 1953, O Estado de S. Paulo iniciou uma série de denúncias contra o que considerava "irregularidades administrativas do governo de Vargas". Entre essas irregularidades, o escândalo das transações entre o Banco do Brasil e as empresas Érica e Última Hora, de propriedade do grupo Samuel Wainer, foi a que mais chamou a atenção do jornal.

Um ano tenebroso para o presidente Getúlio Vargas. Em janeiro corria a especulação sobre a pretensão de Jango em conceder um aumento de 100% para o salário mínimo, despertando a ira de indústrias e comerciantes. Em fevereiro, a oficialidade jovem apresentou um denso memorial, conhecido como Manifesto dos Coronéis, que criticava a política do então ministro do trabalho, João Goulart. Os baixos salários, que desmoralizavam a corporação, e contra a negligência do Estado em relação às Forças Armadas, protelando muitas das diversas necessidades dos quadros militares. No intuito de recuperar a confiança entre a oficialidade, Vargas substituiu Jango e o Ministro da Guerra Espírito Santo Cardoso no mês de fevereiro. Porém, em seu discurso não poupava críticas as remessas de lucros feitas pelas empresas estrangeiras, e chegou a propor o controle das mesmas pelo Estado, bem como a estratégia de aproximação com as massas trabalhadoras. E para confirmar o seu plano de governar para o trabalhador urbano, anunciou em 1° de maio, um aumento de 100% no salário mínimo, provocando protestos por todo o país. Com isso a oposição fechou o cerco contra o presidente e sua base de apoio político no Congresso se deteriorou no curso do primeiro semestre de 1954.

A primeira voz da imprensa oposicionista era de Carlos Lacerda, que lançava mãos de toda a sua virulência para atacar Getúlio Vargas, clamando pela sua renúncia.

Em 5 de agosto, Lacerda foi alvo de um atentado na entrada do prédio onde morava na rua Toneleros, Rio de Janeiro. Nesta ação acabou sendo assassinado o major da Aeronáutica Rubens Vaz que acompanhava Lacerda, que sofreu apenas alguns ferimentos. Este episódio foi apresentado como obra do governo.

O Estado de S. Paulo apoiou o inquérito, realizado na chamada "república do Galeão", através do qual seria revelada "a enormidade dos crimes praticados ao longo dos meses pela verdadeira quadrilha que [cercava] Vargas".

No jornal a Folha da Manhã de 10 agosto de 1954 lia-se: "Longe de declinar, a crise política oriunda da emboscada contra o jornalista Carlos Lacerda, na qual morreu o major Vaz, da Aeronáutica, continua a se agravar. As sucessivas reuniões de autoridades civis e os dirigentes militares de todas as armas, as hesitações do governo nas substituições de algumas personalidades já postas de lado, as noticias que transpiraram de duas reuniões, uma na residência do almirante Amaral Peixoto, outra no Palácio do Catete, numa das quais o presidente da republica chegou a admitir, como solução da crise, o seu afastamento do governo (o sr. Osvaldo Aranha o teria dissuadido disso) o calor da reação parlamentar, a intranqüilidade no seio e da população, a onda de rumor e boatos constituem um conjunto de sintomas da gravidade a que atingiu a situação. O ministro da Justiça, em palestra com a reportagem política, esta tarde, repeliu as informações sobre o desejo do presidente da republica de renunciar. Embora falando em termos não formais, o sr. Tancredo Neves disse-nos que só diz isso quem não conhece o presidente. "Somente em três hipóteses ele admite deixar o governo: pela morte, por uma revolução ou pelo termino normal do seu mandato", frisou o ministro.

A Atitude do Presidente Segundo o Jornal Folha da Manhã

A reunião na residência do almirante Peixoto, na avenida Rui Barbosa, foi mais uma reunião da família Vargas, com a presença de alguns amigos, como o sr. Osvaldo Aranha. "A família estava acabrunhada e aflita, disse em certo momento, na Câmara, o sr. Augusto do Amaral Peixoto. "Nessa oportunidade é que os Sr. Getúlio Vargas teria admitido a hipótese da sua renúncia, no que foi dissuadido por Osvaldo Aranha. Foi nessa ocasião que o presidente da Republica decidiu-se a acabar com sua guarda pessoal, que teria deixado de inspirar confiança a ele próprio. Hoje já é tarde. Voltaram a circular rumores sobre a nomeação do general Zenóbio para a pasta da Aeronáutica, mas foram logo desmentidos, acrescentando-se que já agora não havia mais motivos de distinção entre os grupos militares, todos unidos em torno do mesmo objetivo. A substituição do chefe de polícia pelo coronel Paulo Torres foi tomada pelo jornalista Carlos Lacerda, como um ato provocador do governo, pois a demissão do general Ancora se teria dado precisamente no momento em que ele se decidia a atender a apelos dos seus companheiros de arma para agir contra os criminosos.

Climério Euribes de Almeida, um dos pistoleiros da Toneleros e membro da guarda presidencial, é citado como envolvido no crime do major Vaz. No dia 14 de agosto soldados da Aeronáutica prendem Alcino João do Nascimento. Ele confessa que matou o major e que foi contratado por Climério. Quatro dias depois, Climério de Almeida é capturado e confirma ter sido contratado por Gregório Fortunato.

Em 22 de agosto, os Brigadeiros do Clube da Aeronáutica, dirigem nota ao presidente Vargas sugerindo sua renúncia.

A edição de O Estado de São Paulo do dia 24 de agosto trouxe quatro páginas de manifestações de diversos grupos sociais exigindo a renúncia de Vargas. Naquela madrugada o presidente se suicidou e Café Filho foi empossado presidente.

Em seus 19 anos de governo, e especialmente no último mandato, Getúlio promovera a criação de uma série de agências para estudar, formular e implementar políticas de desenvolvimento, sempre dentro de uma ótica que valorizava a ação do Estado, a iniciativa local. Entre esses empreendimentos figuravam o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE, hoje BNDES) bem como vários outros, de caráter setorial ou regional, como o Plano Nacional do Carvão, a Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia, que visavam o mesmo promover o desenvolvimento econômico a partir do dirigismo estatal.

Grande parte desse trabalho de planejamento foi elaborado pela Assessoria Econômica da Presidência da República, criada por Getúlio em 1951 e comandada por técnicos nacionalistas, como Jesus Soares Pereira e Rômulo de Almeida. Uma das tarefas desse grupo foi exatamente a de planejar a instalação de uma indústria automobilística para o país, o que se tornaria uma das marcas registradas da administração de JK.



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A Cidade de São Paulo na Década de 50


Em 31 de janeiro de 1951 o Prof. Lucas Nogueira Garcez assumia o governo do estado. Apesar de apoiado eleitoralmente por Adhemar de Barros, rompeu com o ex-governador quando este tentou influenciar diretamente na formação de sua equipe de governo.

Professor da Escola Politécnica da USP, Garcez imprimiu um alto nível técnico em sua gestão, indicando o engenheiro Armando de Arruda Pereira para assumir a Prefeitura de São Paulo.

Arruda Pereira,governou o município de São Paulo entre 1951 e 1953. Era um engenheiro de muito prestígio, ex-presidente do Centro das Indústrias e também ex-presidente do Rotary International. Entretanto, sua curta gestão como prefeito foi apenas discreta. O fato mais marcante de sua administração foi a liberação da construção de prédios na avenida Paulista, que levaria à verticalização que conhecemos hoje.

Em 1952, o Congresso Nacional havia decidido revogar o artigo da Constituição de 1946, que obrigava a indicação dos prefeitos das capitais pelos governadores. Convocadas às eleições para o dia 22 de março de 1953, o vencedor foi um destacado vereador que falava em "varrer" com uma vassoura todos os vícios da administração municipal herdados do adhemarismo: Jânio da Silva Quadros.

Jânio e sua vassoura tiveram o dobro de votos de todos os outros candidatos juntos. A limpeza que prometeu atingiu todos os funcionários interinos e até mesmo alguns efetivos que ganhavam uma remuneração extra por participarem dos preparativos das comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo. O seu alvo principal foi o ex-prefeito Paulo Lauro, que governou a cidade entre 29/08/1947-25/08/1948, nomeado por Adhemar de Barros. Jânio também moveu um processo por uso indevido do dinheiro público contra Adhemar.

Depois do estardalhaço inicial, dedicou-se ao que realmente lhe interessava: as eleições para o governo estadual, programada para o segundo semestre de 1954, deixando a cidade em segundo plano. Para tanto se licenciou do cargo de prefeito em julho deste ano, passando o posto para o vice Porfírio da Paz. Já eleito governador retornou à prefeitura no dia 18 de janeiro de 1955 para deixá-la pouco mais de duas semanas depois e passar a faixa de prefeito para o vereador William Salem, presidente da Câmara Municipal.

Apesar da escolha direta do prefeito, a cidade continuava sendo governada com retalhos de mandatos inconseqüentes, sem nenhum planejamento, embora entre 1940 e 1955 a produção industrial tenha aumentado em 892%. Anos depois, em 1974, Jânio comentaria sobre este período em uma entrevista ao Jornal da Tarde: "Àquela altura, e muito mais depois, São Paulo já era uma cidade perdida. Todos os problemas existentes haviam se agravado ao desespero. Água, esgotos, transportes, habitação, educação, lazer, assistência, pavimentação e estes eram apenas alguns dos problemas da cidade de São Paulo".

Se este era o quadro pintado pelo então prefeito Jânio Quadros, o que podemos dizer do subúrbio de Osasco. No Diário Oficial de março de 1950 Osasco começa a falar de seus problemas urbanos. Segundo a reclamação dos moradores para os vereadores Valério Giuli, Guilhermino Lopes Gianni: "Há necessidade urgente de entendimentos com a CMTC, no sentido de ser estabelecida uma linha de ônibus entre São Paulo e Osasco podendo aproveitar a atual linha Lapa-Presidente Altino e outra linha direta que faria o percurso por Pinheiros". Esta reclamação era a que mais pesava no bolso do munícipe do distrito, pois saía quase três vezes o valor cobrado pela CMTC, no mesmo trajeto, o que cobravam as linhas particulares que faziam o trajeto sugerido a CMTC. Neste ano Osasco contribuía com 25 milhões de cruzeiros aos cofres do município e em troca tinha recebido do governo do estado apenas um parque infantil. A grande reclamação continuava sendo a falta de água na torneira das casas, rede de esgoto, iluminação na rua e ruas que tivesse um nome oficial. No entanto, o caos urbano morava no distrito de Osasco, e seus moradores não podiam escolher que administraria o seu caos.

O distrito industrial de Osasco recebe a Fábrica de Tecidos Tatuapé S/A em 1950 em 1951 a Rilsan Brasileira S/A, Adamas do Brasil S/A, Lonaflex S/A Guarnições para Freios e em 1952 a Benzenex Cia Brasileira de Inseticida.

A Sociedade Amigos de Osasco volta as suas atividades na busca da emancipação em maio de 1952 e é notícia na Folha da Tarde em setembro deste ano: "O movimento autonomista está se reunindo no Cine Osasco. Estiveram presente nesta reunião de setembro o deputado federal Cunha Bueno e os deputados estaduais Felipe de Paula, Eumene Machado, Gilberto Chaves, Jânio da Silva Quadros, Castro Neves, Scalamndré Sobrinho, Porfírio da Paz, Hilário Torloni e o vereador Altimar Hilarioe de Lima representado o deputado federal Diógenes Ribeiro de Lima".

O deputado Cunha Bueno veio a Osasco para falar sobre as vantagens da emancipação, afirmando que a descentralização da administração pública só poderia trazer benefício ao distrito e ao Estado de São Paulo.

As explicações políticas e administrativa de Cunha Bueno motivaram o grupo de autonomistas a lutar pela emancipação. O movimento pró-autonomia começava a ganhar as conversas de calçada e a participação popular aumentava.

A consulta aos moradores do distrito para a emancipação "Sim" ou "Não" deveria acontecer em dezembro de 1953 e os autonomistas tinham pouco tempo para mobilizar a população que na sua maioria vivia dispersa e distante centro, onde o movimento estava mais organizado. Este é um período que para os moradores da zona norte era mais fácil, devido à dificuldade de transporte urbano, ir para a Lapa do que vir para o centro de Osasco. Mas, os moradores que acreditavam e queriam o distrito emancipado haveriam de encontrar um meio de fazer chegar a todas as vilas a luta pela autonomia. Afinal, o interesse da emancipação deveria partir dos moradores que se sentissem prejudicados pela má administração de São Paulo. Pó isso lutar para se emancipar deveria ser interesse de todos.

No jornal O Estado de São Paulo de 07 de novembro de 1953 sai publicada uma matéria paga pelo dono do cartório de registro e notas, Dr Lacydes da Silva Prado, que também passou a encabeçar a luta pelo Não a emancipação. Diz a nota: "Manifesto ao Povo de Osasco: Confiando nele, nesse povo de Osasco, modesto, mas sensato, ordeiro, mas altivo, é que iniciamos hoje, de maneira despretensiosa e simples mas, com veemência, a campanha do "Não" contra a maior calamidade cívica que a demagogia de uns, a ambição de grupelhos e o descaso de muitos poderão acarretar a São Paulo, dês servindo ao Brasil. Não somos políticos e nem visamos partidos ou legendas.

Que interessa-nos, população, dos morros e das baixadas, das vilas de Piratininga, São José, Km 18, Carteira, Quitaúna, Yara, etc. que Osasco tenha o brasão de uma prefeitura que apenas beneficie o larguinho da Estação onde se fazem os conchavos e se alimentam as intrigas políticas, incapazes na sua patente desagregam de ter dado até hoje, de Osasco para Osasco, na edilidade de São Paulo, um só e modesto vereador?

É com isto que vamos deixar de ser cidadãos paulistanos para passar à categoria de interioranos sofrendo percalços morais e materiais de uma atitude que só conseguiria beneficiar políticos, cujas lunetas escuras não permitem que os veja dentro dos olhos, para que alvos dirigem as baterias das suas ambições? Serão para os impostos que majorarão talvez 10 vezes mais?..."

É interessante observar que este manifesto do Não fala de um grupo e não de um movimento social. Porque de fato as distâncias e a falta de mobilização do grupo, pró-autonomia, neste primeiro plebiscito, deixava transparecer que a disputa era de um grupo que queria apenas política. No entanto, o líder do Não também era um excelente articulador político e um bem relacionado homem de negócios, afinal sua família foi dona da cidade de São Paulo por vários mandatos, com e sem eleição direta para o cargo. Outro fator muito relevante é que não se pode dizer, ainda hoje, que uma pessoa que tenha no sobrenome Silva Prado, seja pobre e que dependa apenas de um cartório de distrito, para sobreviver com dignidade e conforto. Pelo contrário a propriedade do cartório já era dada através do bom relacionamento político e do sobrenome do pretendente, para a escolha do tabelião o QI era fundamental, afinal cartório nesta época era uma oligarquia cuja nomeação para tabelião dependia de muita influência política.

E continua no seu manifesto do Dr. Lacydes: "Eles são nossos amigos mas se plantaram no alto das suas importâncias e resolveram, quase que à nossa revelia, assunto de tão transcendental importância que nos obrigou a sair do nosso mutismo e gritar bem alto para que todos ouçam: Ou tudo isso corre o risco de um erro de visão que importará no sacrifício moral e material de um povo honesto e trabalhador ou nós nada mais entendemos. Fica a critério, ao teu critério, Povo de Osasco, julgar-nos."

Assinaram este manifesto: Theóphilo Fortunato de Camargo (mais tarde chamado de "Patriarca do Não" pela imprensa local), José Máximo Gonçalves, Antônio Lopes, José Cordeiro, Gregório Barbosa Sousa, Erasmo Pinheiro Machado, José Gabriel Correia, Manoel mariano da Costa, Maria Genta, Orlando Assis da Costa Rangel, José Almir Avelino, Eloiza da Silva Prado, Maria de Lourdes Prado e Lacydes Prado.

Houve também, neste primeiro plebiscito, quem estivesse a favor do "Sim" apenas por causa da dificuldade do ônibus, o que foi conquistado junto ao prefeito Jânio Quadros com um abaixo assinado de 600 assinaturas e uma única ida ao gabinete do prefeito que, aliás, prometeu atender a reivindicação já que achava justo que os moradores pagassem apenas três cruzeiros pelo transporte de ônibus entre Pinheiros até o KM 21. Some-se a isso que Lacydes Prado conseguiu convencer Jânio a construir o tão prometido e anunciado Mercado de Osasco. Com a vitória do "Não" a inauguração desta custosa melhoria para o distrito aconteceu em 1954.

Com todos este fatores contra, somados a falta de articulação e organização dos que pretendiam o "Sim", o "Não" venceu por 145 votos. Por causa desta inexperiência em disputas eleitorais, os emancipadores tiveram que esperar outros cinco longos anos para que houvesse outra consulta popular para a emancipação.



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O Brasil Passa a Viver 50 Anos em Cinco


Juscelino foi um presidente que conseguiu fazer da política a arte de conciliar. Apesar de ser bom nas artes políticas o presidente eleito em 1955 também tinha fantasmas a dominar. E para vencer seu maior fantasma desde que foi eleita, a primeira pessoa em quem JK pensava ao acordar era Carlos Lacerda.

Isso dá bem a dimensão do fantasma, real, e o nível de preocupação que então lhe provocava o político que é hoje o seu contraponto na memória política nacional. Simbolizando um tipo de oposição marcada pela virulência dos ataques, verdadeira metralhadora giratória que mudava de alvo sem parar de atirar, Lacerda conserva até hoje o justo apelido de "demolidor de presidentes" e continua a ser referência para políticos influentes no cenário nacional.

JK também ocupa um lugar de destaque nesse seleto clube de políticos do passado que servem de modelo e inspiração para o presente. Só que, ao contrário de Lacerda, figura na galeria dos "conciliadores", daqueles que entendem a política como a arte de negociar.

A tensa conjuntura política da época seria um teste particularmente difícil para o exercício "da arte de conciliar", ainda mais na presidência da República.

Como desconhecer o fato de que a eleição de JK havia sido contestada e sua posse se devia sobre tudo à decisiva atuação do ministro da Guerra, general Lott. Como enfrentar, logo no primeiro mês de governo, fevereiro de 1956, um levante de oficiais da Aeronáutica no norte do país? Como pôr em prática um ambicioso projeto econômico, o Plano de Metas, sem uma sólida base político-parlamentar, e com a oposição feroz da "Banda de Música" da UDN, com Lacerda à frente? Só sendo político mineiro mestre em fazer da política a arte de conciliar.

Contra aqueles que haviam tomado das armas para tentar impedi-lo de exercer o governo, JK deixou de lado o tradicional arsenal de medidas repressivas, a expulsão das Forças Armadas, e preferiu lançar mão da anistia. Assim, dias depois de encerrado o levante de Aragarças, enviou ao Congresso um projeto de anistia ampla e irrestrita a todos os civis e militares que tivessem participado de movimentos entre 10 de novembro de 1955 e 19 de março de 1956.

Na economia e no planejamento, deu mais sorte e soube aproveitar, e com isso pôde se beneficiar de uma série de instrumentos já produzidos, que iriam facilitar a realização do seu Plano de Metas. Em seu último mandato Getúlio havia criado uma série de mecanismo e instituições que trabalharam na busca de promover o desenvolvimento econômico a partir do dirigismo estatal.

Grande parte desse trabalho de planejamento foi efetivado pela Assessoria Econômica da Presidência da República criada por Getúlio em 1951 e comandada por técnicos de visão nacionalista Uma das tarefas desse grupo foi exatamente a de planejar a instalação de uma indústria automobilística para o país, o que se tornaria uma das marcas registradas da administração de JK.

A exemplo de Vargas, JK incentivou a formação de comissões técnicas que deram continuidade a estudos em andamento. Através do trabalho destas comissões alimentou e alicerçou a crença no desenvolvimento, no progresso e na mudança. Este era um legado deixado por Vargas, do qual JK se apropriou com maestria, inteligência e vitalidade. Adicionou ao desenvolvimentismo, iniciado pelo seu antecessor, a sua ótica pessoal do otimismo e de tolerância política. E contava, na retaguarda, com um corpo institucional já formalizado e uma estrutura burocrática e estatal razoavelmente consolidada, que lhe permitiriam agir e decidir mesmo em momentos de crise política ou militar.

JK recebeu de Vargas um aparelho de Estado montado, com capacidade de planejar, taxar, executar, financiar e cobrar, para pôr em marcha um plano de governo que lhe daria notoriedade. Valeu-se do planejamento, que já era uma marca registrada no país desde os anos 30, e dos corpos técnicos que o Brasil havia formado. A par de tudo isso, soube dar legitimidade política às suas ações prestigiando as instituições representativas e domesticando os descontentamentos militares, que já se tornavam costumeiros a cada novo mandato civil, nas suas reivindicações pelo poder que mais tarde tomaria a forma de ditadura militar. Juscelino maximizou os recursos que o país tinha e criou fatos novos (como a construção de Brasília), sempre orientado pela visão estadocêntrica de desenvolvimento, tão predominante no mundo na época.

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A Cidade de São Paulo em 1957


Em 08 de abril de 1957, Adhemar Pereira de Barros assume a Prefeitura de São Paulo. O populismo do PSP, Partido Social Progressista, de criação do próprio Adhemar passou a administrar a cidade.

Na sua conturbada administração alguns bairros receberam: creches gratuitas para a população mais carente; construção do Jóquei Clube; construção do Centro Educacional e Esportivo da Moóca; Primeiro Projeto de Planejamento Urbano de dimensões sociais; construção do Hospital Municipal do Tatuapé.

Em 15 de outubro de 1957 o movimento operário de São Paulo, organizado por janistas, comunistas e integrantes do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), inicia paralisação que reúne 400 mil trabalhadores. Reivindicam um aumento de 25%. Começava a disputa entre Jânio e Adhemar para ver quem ficaria com a administração do Estado de São Paulo, afinal deste posto chegar a presidência era bem mais fácil.

Permanentemente acossado por adversários que o acusavam de corrupção, o populista Adhemar de Barros viu crescer em torno de si a legenda do "rouba mas faz", herdada anos mais tarde por Paulo Maluf. A verdade é que Adhemar de Barros fez quase nenhum benefício para o distrito de Osasco.

Jânio e Adhemar eram amigos de Lacydes Prado e este, por sua vez, continuava acreditando firmemente que poderia novamente frustrar o pleito que buscava emancipar Osasco.

Assim, em 15 de dezembro de 1957 o jornal Folha de São Paulo fala dos pré-requisitos que um distrito haveria de preencher para se emancipar: Lei Orgânica dos Municípios. Capítulo I - Da criação dos Municípios: São condições necessárias para que um distrito ou subdistrito se constitua município:

I - População mínima de 5 mil habitantes. (Osasco nesta época já tinha quase 80 mil habitantes, já que termina a década com 114 mil)

II - Renda local mínima de 300 milhões anuais. O que deveria ultrapassar em muito o valor tendo em vista que já existia no distrito a maioria das grandes industrias.

III - Distar, por todas as vias de comunicação, entre a sua sede e a do município, a que pertence mais de 12 km contados dos respectivos pontos centrais. Neste item o distrito está a 16 km pela Estrada de Ferro Sorocabana. Todos os demais meios de transportes têm distância ainda maior.

O pré-requisito da lei era a chamada Solução de Continuidade que no parágrafo 5° explicava que nenhum subdistrito seria elevado a categoria de município se não apresentasse solução de continuidade entre o seu perímetro urbano e o do município a que pertença. Ou seja, a futura cidade tinha de ser capaz de efetivamente se desenvolver sem depender da cidade da qual se estava emancipando.

Para o desenvolvimento e a análise para a autorização da votação, de emancipar-se ou Não, ainda havia uma série de documentos que o pretendente a município tinha que encaminhar para a Assembléia Legislativa instruir a representação e dentro do prazo legal, para que era até abril de 1958 saísse a autorização do pleito.

No jornal Última Hora de 16 de janeiro de 1958 a notícia era: "O Subúrbio de Osasco quer a sua autonomia". E para esta eleição a SABO, já contava com o apoio de todos os partidos políticos.

O ano de 1958 foi bastante movimentado nas ruas de Osasco por conta das disputas entre os que lutavam para que o distrito se tornasse município e os que acreditavam que continuar subdistrito de São Paulo era melhor. Esta diferença de opinião trouxe até tiro em pixadores do "Sim". Os osasquenses partidários do "Sim", disseram que presenciaram. A dificuldade em acreditar na estória contada por alguns moradores ao jornal Última Hora é que "depois dos tiros o carro azul saiu em alta velocidade pelas ruas", esburacadas do centro. A final, as fotografias das principais ruas do centro nesta época mais pareciam queijo italiano de tanto buraco que tinha nas ruas.

No plebiscito para a emancipação de Osasco os eleitores, cerca de 21 mil, deveriam se inscrever para votar até 30 de abril de 1958. Aliás, esta foi outra luta dos emancipadores, conseguir inscrever pelo menos um terço do eleitorado do distrito.





Descritivo da foto acima por Amaury Pavão: Assembléia pela autonomia de Osasco presidida pelo Padre Tomás no salão paroquial em Osasco

1. Na primeira fila, de frente para o padre Tomaz, aparece em 1° plano meu irmão Irany Pavão, e parte da cabeça de meu outro irmão, Jurandyr Pavão. Na segunda fileira, da E. para a D.: Diogo Silveira, Mario Nanias, Nide (marido da Eliége i, da Câmara de Osasco) Arthur Koulkjian e Djonik Bedoian. Na fileira de trás, na mesma ordem da E.para a D.: dá para reconhecer-se: Décio Chiappa, Roberto Busoni de Oliveira, Jorge Kamalakian e atrás do Jorge o Harutiun (Arthur Bogasian - o Arturzão uma personalidade notável) e ainda, em segundo plano: Fortunato Antiório (pai); Alceu Gregório, João Gilberto Port, Marcio Antonio Lopes, e atrás do Marcio o Orlando Calazans, Armando Della Nina, Eurípedes Brandão (com a mão na boca) E no canto superior da foto, à esquerda: Silvio Gagliardi, e Waldemar Alepo. Lá no fundo, de óculos, o Roberto Gherardini..

Observação: Se algum nome estiver errado favor me informar esclarecendo. Na reunião havia muitos outros conhecidos. Não reconheci nenhuma das mulheres (duas) que aparecem na foto.

Como é óbvio, não deu para reconhecer todos. Espero ter colaborado. Abraço fraterno, Amaury Pavão




Finalmente a votação foi marcada para o dia 21 de dezembro de 1958 e uma matéria de jornal mostra que nem todos os eleitores sabiam da votação e o porque ou em quem deveriam votar. Assim, o repórter nos conta que: "Embora os chefes da campanha acreditem na vitória, a população de Osasco mostra-se alheia ao movimento. Donos de bares situados no largo da estação não sabiam sequer informar onde funcionava o comitê pró-autonomia, que está instalado, aliás, a dois passos desses estabelecimentos, no referido largo". O que não é de se estranhar porque o Brasil se tornou independente de Portugal sem o conhecimento do povo e se tornou República, também sem o conhecimento popular.

Nesta mesma matéria o repórter conversa com o Dr Reinaldo de Oliveira que argumenta: "O Plano Diretor da capital prevê aumento de cerca de 40% no perímetro urbano da cidade, de 426Km quadrados para 611 km quadrados. Esse alargamento de perímetro atingirá mais da metade de Osasco. E então sobre a atual zona suburbana recairão os pesados tributos resultantes de sua transformação em zona urbana". Um argumento que não se provou totalmente verdadeiro, mas que foi muito útil para atrair eleitores para o Sim certamente.



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Autonomia Virou uma Acirrada Disputa Judicial


Na Cidade Trabalho, a autonomia não podia acontecer de forma tranqüila, sem sobressaltos ou problemas. Assim, o pleito de 21 de dezembro teve muitos percalços eleitorais.

Moradores de outros distritos votaram em Osasco, o que era textualmente proibido por lei: "apenas os eleitores residentes ou domiciliados no distrito há mais de dois anos, inscritos dentro do prazo, poderão votar no plebiscito para a emancipação".

No pleito de Osasco, no entanto, votaram moradores do Jaguaré, Morro da Laje, Vila São Francisco, parte da Vila Yara, parte da Vila dos Remédios e Butantan. Além disso, o eleitor inscrito Benedito Soares de Melo, faleceu no dia 9 de dezembro, porém deu seu voto em 21 do mesmo mês. Coisas que só a votação no distrito de Osasco neste dia pode contar.

Com tantas irregularidades, mais a influência política do dono do cartório, a votação só poderia ter sofrido entraves judiciais das mais diversas ordens. No jornal Gazeta de setembro de 1959 o então prefeito de São Paulo Adhemar de Barros, amigo de Lacydes Prado, determinou ao departamento jurídico da prefeitura que impetrasse mandado de segurança contra a decisão do Tribunal Superior Eleitoral, que marcou as eleições em Osasco, por reconhecer a autonomia da vizinha localidade.

A influencia do tabelião Lacydes Prado é claramente detectada quando na mesma matéria o jornal diz que: "relembra-se que, dessa decisão, em princípios de junho último, o chefe do executivo paulistano declarou que não tinha a prefeitura, nenhum interesse especial em opor-se. E disse aos jornalistas que mandava felicitações ao novo município e votos por uma feliz existência".

Ainda na mesma matéria a disputa política dos donos de São Paulo continua a ser relatada quando: "em 1958, realizou-se o plebiscito em Osasco havia ali 24 mil eleitores, votaram 8 mil e a autonomia foi vencedora, por uma diferença de pouco mais de 1.300 votos.

Em setembro de 1959 o prefeito obteve mandado de segurança contra as eleições que já estavam marcadas para o dia 07 de janeiro de 1960. No entanto, o governador Jânio Quadros, ficava em campo contrário ao do prefeito, acirrando a luta entre o Sim e o Não para a emancipação do distrito". Por isso neste período Osasco se transformou num belo campo de batalha política entre os ademaristas e janistas.

O mais incrível é que para a primeira eleição do jovem município em setembro de 1959 já estavam registrados 269 candidatos a vereador, 6 a prefeito e 7 a vice-prefeito. Isso que o pleito ainda não havia sido marcado.

As elições para a emancipação do distrito foi julgada duas vezes no Supremo Tribunal Federal. Onde fosse julgado teria uma centena de autonomistas pressionando.

Entre 1958 e 1962 os autonomistas, com destaque especial para os Sr Fuad Auada e Antônio Menck, brigaram na Justiça pela validade do pleito e nesta fase o então prefeito de São Paulo, Adhemar de Barros tentou de todas as formas impedir a emancipação. "Vencemos devido à empatia de grande parte dos deputados", registrou alguns anos mais tarde, Dr. Reynaldo de Oliveira, Patriarca da Emancipação.



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A Luta Para a Primeira Eleição


Finalmente a primeira eleição para definir o prefeito de Osasco foi marcada para 7 de janeiro de 1962, pelo Tribunal Regional Eleitoral. Um dia antes da votação o prefeito de São Paulo conseguiu um mandado contra a realização das eleições, acolhido pelo Supremo Tribunal Federal.

Este fato causou revolta na população, que promoveu uma verdadeira rebelião, quando os osasquenses marcharam para São Paulo para reivindicar o direito de votar. "Jamais esqueceremos esses angustiosos dias em que a população de Osasco, como que abalada por um cataclisma que se abateu sobre a cidade, recebeu a estarrecedora notícia da suspensão do pleito, na véspera de sua realização", narrou Dr. Reynaldo.

Nesta fase houve uma comoção na cidade que se cobriu de luto. Uma bandeira negra foi hasteada no Largo da Estação. Homens, mulheres e crianças, contou Dr Reynaldo, usavam luto na lapela ou faixa preta no braço, tornando-se protagonistas da mais bela página da história de Osasco.

"Osasco se tornou uma praça de guerra tal foi o número de militares que veio prevenir uma possível reação violenta do povo diante da decepção e frustração de um ideal".

O comércio cerrou suas portas colocando luto nelas. O ambiente na cidade era tenso. E para complicar espalhou-se, como rastilho de pólvora, a notícia de que a esposa do prefeito Adhemar de Barros estava na casa de uma das chefes do movimento anti-autonomistas. Para lá se dirigiu uma enorme massa popular e ela fugiu pelos fundos da casa.

Organizou-se uma marcha para Assembléia Legislativa, casa do prefeito, visitas a jornais, uma centena de veículos, camionetes, peruas, caminhões, etc., com faixas e dizeres alusivos e panos pretos e foram para o Palácio 9 de julho, Assembléia Legislativa.

Os osasquenses pararam o vale do Anhangabau, com estridente buzinar e outros carros se juntaram à caravana.

Na assembléia foram recebidos pelos deputados e de lá para o palácio Bandeirante, em visita ao governador.

Quando os autonomistas se aproximaram do palácio, tiveram sua passagem barrada por um pelotão de choque da força pública com metralhadoras assentadas no meio da rua. Foi permitida a passagem apenas a dois emissários para falarem com o governador. Depois de serem recebidos pelo governador os autonomistas seguiram para residência do prefeito, onde os aguardava a guarda civil que não permitiu a parada dos manifestantes.

A luta pela emancipação de Osasco foi manchete várias vezes nos jornais de todo país e também no Times, de Londres.

Uma outra forma de protesto dos autonomistas foi colocar urnas espalhada pelo centro para que os eleitores devolvessem os seus títulos ao Tribunal Eleitoral demonstrando a inutilidade do documento eleitoral. Em um só dia devolveu-se 4.200 títulos. Outra manifestação foi colocar uma pira ardente que ficou acesa por quase um mês, do Museu do Ipiranga. O fogo simbólico só seria extinto pelo primeiro prefeito, Hirant Sanazar, eleito em 4 fevereiro de 1963.

Hirant Sanazar, venceu as eleições, obtendo 9823, dos 23283 votos válidos. Em 7 de fevereiro ocorreu sua diplomação, junto com os vereadores eleitos, e no dia 19 de fevereiro, tomou posse como primeiro prefeito de Osasco, iniciando uma nova etapa da história política da cidade que conquistava a sua lutada autonomia política e administrativa.



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Hirant Sanazar: da Praça à Desgraça


Tão logo assumiu o primeiro prefeito de Osasco (1962/67), a municipalidade de São Paulo começou a fazer pressão através de carta enviada pelo então prefeito Prestes Maia.

Nela, o nobre mandatário do vizinho município lembrava ao jovem e recém empossado prefeito osasquense que os 114 professores da rede pública de ensino tinham seus contratos de trabalho vinculados àquele município e não a este. Por isso, seriam remanejados imediatamente para outras escolas.

Hirant Sanazar entrou em contato com o então governador Carvalho Pinto, solicitando que os professores que prestavam serviço no recém criado município de Osasco fossem mudados de contrato do município de São Paulo para o Estado. Pelo menos até que o município tivesse uma organização administrativa que permitisse a contratação de servidores. Além do que, o município de Osasco ainda nem tinha receita que pudesse remunerar ninguém. A solicitação foi imediatamente aceita pelo chefe do executivo estadual e, com isso, o jovem município pode economizar o numerário que ainda não dispunha.

A prefeitura paulistana não parou por ai. Confirmada e consumada, a emancipação providenciou a retirada de objetos de grande valor para a continuidade da prestação dos serviços público para o povo de Osasco. Objetos estes que não alterariam em nada a economia paulistana, porém, fariam muita diferença a geladeira para o pronto- socorro de Osasco, os caminhões para a coleta de lixo e o piano para conservatório musical. Para piorar, não repassou o cadastro imobiliário e o mobiliário, únicas fontes de receita para o jovem município.

Com isso ficava inviável para Osasco fazer o balanço e a cobrança dos devedores do IPTU, bem como o das indústrias e profissões.

A penúria do primeiro ano de governo foi tal que a prefeitura foi instalada em prédio cedido pelo munícipe Marrey Jr.

As máquinas e o mobiliário foram doados pelo sempre amigo de Osasco Amador Aguiar e a diretoria do Bradesco, que chegou até a adiantar impostos para que a cidade pudesse minimamente se organizar e trabalhar.

O prefeito Hirant Sanazar conseguiu remar as inúmeras adversidades e adquiriu prédios para sede da prefeitura na rua Antônio Agu e também para o Centro de Saúde na rua Minas Bogasian.

Pouco a pouco, adquiriu 17 veículos, três caminhões de lixo modernos em substituição aos antigos de tração animal.

Asfaltou 44 ruas, sendo que as principais foram a Marechal Rondon ( antiga rua Cobrasma) e a J.M. Ferraz no centro.

Ajardinou três praças e instalou 105 mil metros de guias e sarjetas.

Conseguiu também que funcionários da prefeitura de São Paulo viessem a Osasco ensinar aos funcionários da jovem municipalidade como trabalhar.

Conseguiu instalar luz elétrica nas principais vias públicas do centro e de Presidente Altino.

Negociou a greve dos motoristas de lotação e instalou o transporte coletivo. Criou a Juventude Cívica de Osasco - JUCO - e a Biblioteca Municipal Monteiro Lobato.

Hirant teve de ter paciência e coragem para trabalhar todas as adversidades que lhe foram impostas e somem-se a elas as dificuldades políticas vividas, pelo fato de seu vice-prefeito Marino Pedro Nicoletti querer governar a qualquer preço.

Para complicar ainda mais, Hirant foi preso quando veio golpe de 64. As alegações para a sua prisão não se confirmaram e ele foi solto, mas graças às intrigas da oposição liderada pelo vice-prefeito Marino Pedro Nicoletti, teve seus direitos políticos caçados por dez anos.



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Período de 19/02/1962 a 19/02/1966


Com a posse dos 23 primeiros vereadores, do primeiro prefeito e do primeiro vice-prefeito em 19/02/1962, a Câmara de Osasco, em sua 1ª Legislatura, procurou, junto com Poder Executivo, criar condições para consolidar a autonomia do recém criado Município de Osasco. Aprovou o orçamento e criou um quadro de funcionários públicos, tanto para o legislativo quanto para o executivo, a fim de possibilitar funcionamento dos órgãos da administração.

Conforme relata o Dr. Aymoré de Mello Dias, vereador da 1ª Legislatura, "O município de Osasco existia apenas no papel, porque nós saímos da condição de distrito, ou seja a administração pública era exercida por São Paulo para criar uma cidade, que lógico, neste primeiro momento era desprovida de tudo. Nós não tínhamos sequer imóveis ou móveis para instalação dos órgãos públicos. A Câmara, por exemplo, foi alojada em um parque infantil e a Prefeitura ocupou um prédio que estava ruindo. Nós construímos o município do nada. Fizemos as leis básicas, que se tornaram o alicerce para o surgimento do município de Osasco. Como a cidade não existia, deve-se reconhecer o esforço conjugado de todos aqueles políticos que começaram a construir a cidade e que trabalharam em prol de seu progresso e de seu desenvolvimento".

Em entrevista, o ex-vereador João Gilberto Port afirmou: "Quando alcançamos o status de cidade em Osasco, havia apenas três ruas pavimentadas e cinco ou seis iluminadas. O resto era brejo, ruas de terra, esgoto a céu aberto etc. Era uma cidade por construir, com tudo por fazer. Foram as adversidades do distrito que me levaram a presidência do Grêmio Estudantil, e foram estas mesmas dificuldades que nos fizeram enveredar para a política partidária. Aceitamos e acreditamos que podíamos construir uma cidade quando aceitamos lutar pela emancipação. Achávamos que precisávamos libertar Osasco da capital de São Paulo e assumimos a liderança desse movimento. Fomos presos pelo DOPS, respondemos processos em função do dia do plebiscito. Realmente foi um plebiscito com irregularidades, tenho que admitir isso, mas foram estas irregularidades que nos possibilitaram a conquista da cidade que hoje temos".

O também vereador da 1ª Legislatura Clóvis Assaf, certa vez declarou: "Osasco se emancipou numa época muito difícil, porque o prefeito de São Paulo, Sr. Prestes Maia, ficou devendo 800 milhões para Osasco e não pagou. O primeiro Prefeito teve que fazer um levantamento aéreo-fotográfico para poder cobrar os impostos da ocasião. Aliás, com três meses, elegemos o primeiro presidente da Câmara. Depois começamos a trabalhar com o governo do Estado, porque Osasco crescia vertiginosamente, sem ter uma praça, água ou esgoto. Não tínhamos nada, e o crescimento populacional de Osasco era tremendo".

A grande preocupação dos vereadores e do poder Executivo, também foi a propositura e aprovação de posturas e de leis que regulassem a vida da cidade quanto às normas de edificações, saúde, instituição de taxas e impostos e isenções às indústrias que se instalassem em Osasco.

Nesta 1ª Legislatura, o Executivo foi autorizado a colocar imóveis à disposição do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Um para a instalação do fórum e outro para servir de moradia ao juiz da Comarca. Várias áreas foram desapropriadas para construção dos primeiros equipamentos públicos municipais, entre eles: parques infantis, escolas, praças e avenidas. Também nesta época, foram criadas, por lei, a Biblioteca Municipal Monteiro Lobato e a JUCO - Juventude Cívica de Osasco. Convênios foram firmados junto ao Estado de São Paulo para utilização de equipamentos de saúde estaduais e a criação de um Corpo de Bombeiros no município.

Hirant Sanazar, primeiro prefeito de Osasco, em entrevista declarou: "Nós fizemos convênios importantes com o Governo do Estado. Através do governador Carvalho Pinto, conseguimos o policiamento da cidade e a transferência do ensino municipal - que nesta época era do município de São Paulo - para o ensino estadual".

Leis começaram a ser aprovadas para anistiar as construções clandestinas, denominação de ruas, subvenções às entidades assistenciais e os títulos de Cidadão Osasquense, cabendo o primeiro título a Auro Soares de Moura Andrade, senador da República. O Executivo solicitou e a Câmara aprovou - após intensos e fervorosos debates - a abertura de concorrência pública para implantação do sistema de telefonia automática na cidade (DDD - discagem direta à distância), vencida pela COTESPA - Companhia Telefônica Suburbana Paulista -, empresa ligada ao grupo Bradesco. "Nós abrimos concorrência internacional para exploração da telefonia no novo município, criando o sistema DDD. Através desta iniciativa Osasco passou a falar com o mundo inteiro", comentou o primeiro prefeito.

Já nessa época, há o registro de autorização para abertura de crédito especial mediante a emissão de letras do tesouro municipal. As leis 130 e 131 - aprovadas no período - colocavam em evidência um assunto que à época ainda estava "quente" nos meios políticos da região: a emancipação de bairros da capital. Foram aprovadas as incorporações ao jovem município de Osasco dos bairros Centro Industrial do Jaguaré, Vila Jaguara e Vila Piauí, bem como os altos da Vila dos Remédios, o que acabou não se confirmando.

"Na verdade, o Jaguaré pertencia a Osasco na ocasião. Foi uma manobra política muito ‘malandra’ que fizeram”, comenta Hirant. “O prefeito ‘engoliu’ essa situação, por algum tempo e mais tarde tentou um plebiscito, utilizando o plano qüinqüenal da Lei Orgânica, que regia todos os municípios, mas acabou perdendo na votação. Na minha opinião, não seria necessário um plebiscito, porque nas plantas e mapas de antigamente, o Jaguaré constava como parte do 14º distrito de Osasco. Em relação à Vila Piauí e Vila Jaguara, eu tenho a impressão que não houve atuação jurídica adequada para poder reivindicar aqueles bairros para Osasco. Acho que nos dois casos faltou o trabalho de um jurista competente para poder fazer essa reivindicação valer. Com isso, Osasco perdeu uma parcela considerável daquilo que poderia ser hoje um território muito grande e uma fonte arrecadadora de grande valor para cidade", relatou o Dr. Aymoré de Mello Dias.



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Vida Política no Jovem Município e a Revolução


A vida política do país era muito conturbada naqueles idos de 1964 e a frágil democracia vigente, sofreu um duro impacto com o Golpe Militar de 1964.

Os partidos políticos, sindicatos e outras instituições foram fechadas e vários dirigentes presos. A acusação dos golpistas era a "corrupção" e a "subversão".

Conforme relato do ex-vereador e líder estudantil na época, João Gilberto Port, "com a constituição da Câmara, quando os vereadores foram tratar dos seus subsídios, os estudantes se movimentaram e nós lideramos a luta contra a fixação deste subsídio. Os estudantes foram à porta da Câmara, onde houve até apedrejamento do prédio por parte dos jovens da época. E eu era o líder deles. Houveram diversas acusações, mas foram todas dissipadas durante o IPM, Inquérito Policial Militar, que se realizou em Quitaúna".

Hirant Sanazar conta que "na área estudantil, metalúrgica e bancária, houveram 45 prisões no município". Em fevereiro de 1966 a cidade sofreu intervenção federal, sendo que o prefeito e todos os vereadores foram presos e perderam os seus mandatos.

O primeiro prefeito tinha como vice o engenheiro Marino Pedro Nicoletti. Assim que assumiu o seu cargo para o qual foi eleito, passou a sofrer oposição férrea desse grupo que não conseguiu se eleger. Por causa desta oposição ferrenha, administrar e construir a nova cidade ficou muito difícil. “Me recordo que muitas vezes o vice-prefeito foi visto com militares no período que antecedeu o Movimento Revolucionário, levando ‘informações’ a respeito da situação política da cidade. Foi quando eclodiu o Movimento em 31 de março de 64 e os militares já estavam ligados a esse grupo e eram ligados através da união do PL (Partido Libertador) e da UDN (União Democrática Nacional), partidos considerados anti-democráticos na ocasião. Então, fizeram denúncias anônimas, o que era suficiente para que um político fosse recolhido aos quartéis. Isso aconteceu por muitas vezes. Denúncias falsas, sem nenhum fundamento, que acabam por não condenar ninguém”, comenta o primeiro prefeito. Segundo ele, "alegavam que os vereadores teriam recebido propina para aprovar o projeto que entregaria ao Bradesco os serviços telefônicos, à antiga COTESPA, e eu fui acusado de defender a entrega dos serviços telefônicos de Osasco a uma Empresa da Alemanha Oriental (antiga Alemanha Comunista) e a acusação dizia que eu iria receber da Alemanha Oriental alguma contribuição para isso. Eles falavam em corrupção; um grupo apoiava a entrega ao Bradesco, talvez por razões de simpatia para com o banco que era novo na cidade de Osasco, e outros, como eu, que entendiam que devia ser entregue a quem apresentava a proposta mais conveniente para a cidade. Acabaram não provando nada e o inquérito policial militar foi arquivado por falta de provas".

veja aqui a defesa de Hirante através deste filme.
"Comissão da Verdade defesa do ex-prefeito Hirant Sanazar"



informação importante sobre este trabalho


Para contar a história de Osasco utilizei o trabalho da amiga Mara Danusa por entender que grande parte deste trabalho foi fundamentado com documentos cartoriais.

O meu papel aqui é juntar a esse trabalho o meu acervo de fotos e documentos históricos de Osasco e buscar ainda mais informações sempre respaldadas por documentos, fotos e imagens e alinha-los em uma publicação que não tem pretenções acadêmicas mas reúne um grande material para pesquisa.

Este trabalho e diversas outras sesssões deste site, relacionadas a história de Osasco, conta com a prestimosa colaboração de diversos amigos e amigas que estão enviando fotos e documentos para o enriquecimento deste conteúdo.

Entre os quais:

Amauri Pavão
Americo Viviani
Carlos Sakatauskas Junior
Carlos Sindona
Dimas Bussadori
Edison Carreira
Eduardo Metroviche
Fatima Regina Castro
Jorge Kamalakian
José Luiz Alves de Oliveira
Klaus Werner
Luiz Antonio Tozetti
Marcia Rocha
Marilza Battiston Seferian
Nice Odália
Rosangela Antiório
BREVE ESTAREI CITANDO TODOS OS DEMAIS COLABORADORES




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