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A história da Vidraria Santa Marina reflete o momento de transformação de um Brasil exclusivamente agrícola para um país industrializado. O ano é 1895, quando Elias Fausto Pacheco, engenheiro proveniente de uma família de fazendeiros de café, e o conselheiro Antonio da Silva Prado, advogado influente na política brasileira, constituem a Prado & Jordão, embrião da Santa Marina.

O local escolhido para a fábrica foi a área próxima ao rio Tietê, rica em jazidas de areia de cor e qualidade ideais para a fabricação de vidro. Para quem conhece São Paulo, é difícil imaginar essa região de vias expressas e trânsito intenso, como ela era na época: alagadiça e praticamente desabitada, com umas poucas casinhas de sapé e pau-a-pique. Mas a cidade começava a se transformar, e os bairros da Água Branca, Pompéia, Lapa e Freguesia do Ó eram urbanizados aos poucos em função do crescimento da fábrica.

E a Santa Marina, sempre com os olhos voltados para o futuro, buscou novas alternativas: trouxe mão-de-obra especializada da França e ergueu um conjunto habitacional junto à fábrica para acomodar esses operários. As casas contavam com água, luz elétrica e escaravilha, um resíduo do carvão utilizado nos fornos que era um bom combustível para os fogões domésticos. Na escola da vila, os filhos dos operários aprendiam português, italiano e francês.

Em 1901, Antonio Prado comprou a parte dos herdeiros de Jordão, e em 1903 transformou a empresa em sociedade anônima, sob o nome de Companhia Vidraria Santa Marina Marina, em homenagem a uma de suas filhas.

Biografia

Antonio da Silva Prado
1888

Filho de Martinho da Silva Prado e de Veridiana Valéria da Silva Prado, membros da aristocracia cafeeira paulista, tinha o apelido de Antonico. Dona Veridiana era filha de Antônio da Silva Prado, o Barão de Iguape. Seu pai era tio de sua mãe.

Formado na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1861, cursou especialização em direito em Paris. Foi chefe de polícia em São Paulo. Deputado provincial de São Paulo (1862-1864). Foi deputado federal, na época se dizia "deputado geral", em 1869 e 1872 pelo Partido Conservador. O conselheiro publicava suas opiniões no órgão do Partido Conservador, o Correio Paulistano, que foi de sua propriedade a partir de 1882, e que mais tarde se tornou o órgão do PRP, ao qual o conselheiro se filiou.

Em 1878 foi inspetor especial de terras e colonização da Província de São Paulo. Tornou-se conselheiro do Império em 1888 e senador em 1886.

Foi partidário da abolição, e ministro da agricultura. Foi incentivador da imigração italiana no Brasil sendo um dos fundadores da "Sociedade Brasileira de Imigração". Foi também ministro das relações exteriores.

Foi incentivador de ferrovias, tendo, no ministério da agricultura, autorizado a construção de muitas linhas férreas no Brasil.

Como ministro da agricultura, em 1885, participou da elaboração e assinou, junto com a Princesa Isabel a Lei Saraiva-Cotegipe, também chamada lei dos sexagenários, lei que previa a abolição gradual da escravatura negra no Brasil com indenização aos proprietários de escravos.

Em 1888, o conselheiro Antônio Prado fez parte do gabinete João Alfredo Correia de Oliveira que elaborou o projeto da Lei Áurea.

Quando faleceu no Rio de Janeiro, em 1929, seu filho Antônio da Silva Prado Júnior era o prefeito da cidade.


Primeiro prefeito de São Paulo

Na República pertenceu ao PRP.

Tomou posse como intendente da cidade de São Paulo em 7 de janeiro de 1899, sendo o primeiro a receber o título de prefeito e permaneceu doze anos no cargo, até 15 de janeiro de 1911, o que o torna o prefeito que mais tempo ficou no cargo. Foi um dos fundadores do Automóvel Clube de São Paulo.

Procurou modernizar a cidade, através da construção de pontes e o aterramento de várzeas que, em período de chuvas, impediam a ligação entre as várias regiões da cidade de São Paulo.

Foi responsável, em seu mandato, pela implantação do sistema de energia elétrica na cidade, em 1900, graças a uma usina hidroelétrica construída em Santana de Parnaíba, através da empresa canadense The Sao Paulo Light & Power, que ocupava o atual centro comercial do mesmo nome.

Embora tivesse sido em sua gestão que ocorreu a construção do Teatro Municipal, deixou o cargo em 15 de janeiro de 1911, sendo o Teatro Municipal inaugurado pelo então prefeito Barão Raimundo da Silva Duprat em setembro de 1911, ao lado do Viaduto do Chá. Mas, Antônio Prado inaugurou a Pinacoteca do Estado e a Estação da Luz – além da construção da avenida Tiradentes, onde se localizam as duas obras citadas.

Neste período, a população aumentava vertiginosamente: como consequência do fim da escravidão, grandes levas de imigrantes vieram para o Brasil, principalmente italianos (estima-se que na primeira década do século XX cerca de 900 mil deles chegaram ao país), fazendo a população da cidade saltar para quase 400 mil habitantes – e em 1908 chegaram os primeiros japoneses. A maciça ocupação da cidade por estrangeiros ocorreu devido à rápida industrialização, com destaque para os setores têxtil e de alimentação.

Depois de deixar a prefeitura, o Conselheiro Antônio Prado deixou a política, só a ela retornando para fundar, em 1926, o Partido Democrático (1930) emprestando seu prestígio político à nova sigla. A reunião de políticos que fundou o Partido Democrático foi realizada em sua residência.


Cafeicultor, banqueiro e empresário

Cafeicultor, banqueiro e empresário Antônio da Silva Prado e seu irmão Martinho Prado Júnior (o Martinico Prado) foram colonizadores na região de Ribeirão Preto adquirindo a Fazendas São Martinho (na atual Pradópolis) e formando a Fazenda Guatapará que chegaram a possuir 20 milhões de pés de café. A Fazenda Guatapará recebeu o Rei da Bélgica em 1923.

O conselheiro Antônio Prado também formou a fazenda Santa Veridiana, nome que homenageia sua mãe, que chegou a ter 4 milhões de pés de café, localizada no atual município de Santa Cruz das Palmeiras. Criou também o balneário do Guarujá, um empreendimento pioneiro para a época, o início do século XX.

Antônio da Silva Prado foi banqueiro proprietário do Banco do Comércio e Indústria do Estado de São Paulo, conhecido posteriormente como Banco Comind, da Vidraria Santa Marina e dono de um frigorífico em Barretos e proprietário e presidente da Companhia Paulista de Estradas de Ferro por 30 anos. A Paulista, ficou conhecida mundialmente por sua eficiência e pontualidade e, se dedicou principalmente ao transporte de café e carnes. Foi também um dos pioneiros em reflorestamento no Brasil, plantando bosques para abastecer de madeira a Companhia Paulista de Estradas de Ferro


Chácara do Carvalho

Recebida por herança, a Chácara do Carvalho, foi onde residiu com sua família, a esposa Catarina da Silva Prado e oito filhos, no período de 1893 a 1929.

Tal era o prestígio da família e do palacete, que, em agosto de 1920, chegou a hospedar os reis da Bélgica. Seu enterro saiu da propriedade, sendo acompanhado a pé pela população até o Cemitério da Consolação, na capital de São Paulo.


A Greve na Vidraria Santa Marina e a Cooperativa dos Vidreiros em Osasco.


Breve Esclarecimento:
A escolha desse trabalho se deu em razão de diversos questionamentos e fatos que a pesquisadora coloca de forma clara a entendermos que muito ainda há para se estudar sobre estes fatos da história.




O texto a seguir é um trabalho acadêmico realizado por:

Ana Lúcia Rodrigues da Luz (pesquisadora)

Profª.: Maria Cecília Martinez (Orientadora)

Hagop Garagem apenas esta transcrevendo este trabalho e buscando ilustrar com algumas fotos e imagens.




Apresentação.


Este artigo é parte de um trabalho de iniciação científica ligado à área de história de Centro Universitário FIEO.

É um trabalho que, inicialmente se propunha a estudar uma greve ocorrida em São Paulo, no bairro da Água Branca no ano de 1909 e o seus resultados finais que deram origem à formação de uma Cooperativa de Vidreiros na região de Osasco, que teoricamente seria administrada por operários.

Ao dar início à pesquisa para a realização deste trabalho parti de uma análise já efetuada pela autora Helena Pignatari Werner, que em seu trabalho Raízes do Movimento Operário em Osasco afirmou que o movimento possuía uma concepção anarquista, amparada por toda uma historiografia que também identificava o movimento operário da Primeira República como sendo ligado aos anarquistas. Porém, no decorrer da pesquisa examinando as fontes utilizadas pela autora, e ampliando ainda mais o número de fontes pesquisadas, foi possível verificar que o movimento em questão não era anarquista, como será exposto à frente.

O trabalho não pretende retirar o mérito dessa autora, que trouxe à tona um movimento tão importante para a história da luta operária dos trabalhadores da Primeira República, porém, o texto Raízes do Movimento Operário em Osasco, é um trabalho escrito antes de inúmeros estudos que possibilitaram novos enfoques sobre o movimento operário, principalmente o da Primeira República. Assim, torna-se necessário complementar e reavaliar alguns dos dados apresentados na referida pesquisa.

1 História da Vidraria Santa Marina


A Vidraria Santa Marina foi fundada no final do século XIX, no ano de 1895, por um membro da oligarquia Paulista, Conselheiro Antônio Prado, que era um latifundiário envolvido na produção cafeeira. Como neste período a exportação do café estava possibilitando um enorme acúmulo de capital, alguns cafeicultores diversificaram seus investimentos obtidos com os lucros da venda do café. Um desses cafeicultores foi Conselheiro Antônio Prado, que investiu seu capital no comércio, em estradas de ferro, como por exemplo, a Companhia Paulista da Estrada de Ferro, da qual era um dos principais acionistas. Além disto, também investiu seus lucros, na indústria, construindo a fábrica de vidros Santa Marina, que acabou se tornando um ótimo investimento, pois no Brasil, praticamente não existiam fábricas de atuação neste ramo fazendo, com que as fábricas que necessitavam de vidros, como por exemplo, os estabelecimentos ligados à venda de cervejas tivessem que importar o produto. No ano de 1903, tem-se a entrada de um outro sócio no negócio, outro membro da oligarquia, o conde Asdrubal do Nascimento.

Com a criação da fábrica tornou-se, necessário à importação de uma mão-de-obra especializada, ou seja, trabalhadores que soubessem lidar com o trabalho de vidros. Desta forma, têm-se a entrada de trabalhadores vindos da França, porém, não vieram somente franceses, para o trabalho na Vidraria Santa Marina, mais também um certo número de imigrantes italianos, isso pode ser explicado, pelo fato de que neste período, a Itália estava passando por uma forte crise econômica, o que fez com que sua população migrasse para outras regiões da Europa. Isso explica o fato de encontrarmos muitos imigrantes italianos no Brasil neste período, trabalhando nas fazendas de café, e posteriormente nas primeiras indústrias do país, inclusive trabalhando como operários na Vidraria Santa Marina.

Os imigrantes que se dirigiram para a Vidraria Santa Marina vieram, trabalhar de acordo com as leis trabalhistas francesas, que já garantia alguns direitos aos trabalhadores, entres eles: aposentadorias, indenizações, entre outros benefícios. Esses trabalhadores vieram garantidos pelas leis trabalhistas francesas, porque no Brasil não existiam leis que protegessem a classe operária; aqui os trabalhadores eram tratados ainda como se fossem escravos, devido à mentalidade da classe dominante do período, acostumada a lidar com o trabalho escravo.

Embora os imigrantes italianos e franceses tivessem, vindo trabalhar na Vidraria Santa Marina pela legislação francesa, os donos da fábrica possuíam suas próprias leis internas, o que acabou muitas vezes se tornando uma forma de controle sobre os trabalhadores, numa tentativa de impedir que estes operários se organizassem e se manifestassem contra a classe dominante; “Qualquer operário vidreiro será sujeito a paradas ou suspensões de todo o trabalho proveniente de caso de força maior de greves totais ou em parte, de fornos mortos, ou desemprego para consertar sem que, portanto, Ter o direito de reclamar indenização.”1

Como se observa de acordo com esse regulamento os operários da Vidraria Santa Marina, não podiam fazer greve, pois caso o fizessem seriam demitidos e não receberiam indenizações, o que invalidava de uma certa forma, a legislação francesa.

Com relação ainda aos operários da Vidraria Santa Marina, estes quando chegaram para o trabalho na fábrica foram instalados, em moradias que pertenciam aos proprietários da Santa Marina, que também cedia aos operários alimentos mais baratos, provenientes de um armazém, também de propriedade dos donos da fábrica, tudo isso era feito, como uma forma de controlar estes trabalhadores. Porém, todo este controle não impediu que estes operários da Vidraria Santa Marina entrassem em greve em 09/09/1909 e só retornassem ao trabalho no dia 21/10/1909.

2 Greve na Vidraria Santa Marina


A greve dos vidreiros se iniciou no dia 09/09/1909, foi efetuada, inicialmente pelos trabalhadores menores da fábrica, ou seja, os portadores (que transportavam as garrafas para o seu destino final, ou seja, o esfriamento), esses operários menores reclamavam por uma melhoria de salário, queriam um aumento, e por este motivo resolveram fazer uma paralisação. Logo que a greve se iniciou foi montada, uma comissão de operários da fábrica para que se entendessem com os donos do estabelecimento.



1WERNER, Helena Pignatari. Raízes do movimento operário em Osasco. São Paulo: Cortez. 1981. p. 74.

Enquanto esta comissão estava em reunião com os donos da fábrica procurando, realizar um acordo que beneficiasse os dois lados, o gerente Brasílio Monteiro da Silva mandou chamar a policia para reprimir o movimento, e quando a comissão de operários saiu da reunião foi atacada pela força policial. Esta atitude do gerente da fábrica fez com que, a greve que inicialmente era só dos menores acabasse pôr tomar proporções maiores e todos os trabalhadores da fábrica acabaram por se declararem em greve, como menciona o jornal “O Commércio de São Paulo” de 11/09/1909; “depois das prepotencias, praticadas em Agua Branca pela policia se declararam em greve todos os operarios da Vidraria Santa Marina.”2

. Além de todos os operários da fábrica Santa Marina terem aderido à greve, estes também, passaram a exigir não só o aumento do salário dos menores, mais também a demissão do gerente Brasilio Monteiro da Silva, devido à atitude que este tomou ao efetuar a repressão aos vidreiros. É preciso lembrar que neste período todo movimento grevista era visto como caso de polícia, sendo desta forma severamente atacado pela força policial, e desta forma, não foi diferente com os grevistas da Vidraria Santa Marina, que durante todo o movimento paredista tiveram, que enfrentar a repressão física efetuada pela força policial, que obedecia a classe dominante do período.

Com o decorrer da greve, sem que os donos da fábrica atendessem as reivindicações dos operários, a repressão aumentou enormemente, não se restringindo, apenas a repressão física exercida pela força policial, mais também se utilizando de outras formas de repressão, na qual os donos da Vidraria Santa Marina mandaram apagar os fornos da fábrica, desta forma podendo demitir os operários. Além disto, expulsou os trabalhadores de suas moradias, cortou o fornecimento de alimento aos operários, que era vendido por um preço mais barato e também, obrigaram os operários a entregar o prédio, no qual funcionava uma escola em que os filhos dos vidreiros estudavam, onde tinham como professor, o italiano Edmondo Rossoni.

Mesmo com toda a repressão à classe de trabalhadores da Vidraria Santa Marina, os operários continuaram a dar segmento a greve, embora jornais do período, defensores da



2 Greve – Na Vidraria Santa Marina – os pedreiros – outros empreiteiros que aceitaram as condições impostas pelos grévistas. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 11 set. 1909, p.3.

classe dominante, como por exemplo, o Correio Paulistano, insistissem em dizer, que a greve havia chegado ao seu final entre os dias 15/09/1909 e 16/09/1909, e defendessem fervorosamente os donos da fábrica Santa Marina e a ação da polícia.

Os vidreiros se organizaram e decidiram publicar um manifesto, que convocava a adesão de outros trabalhadores a sua causa. Também decidiram boicotar os produtos que utilizavam o material produzido pela Vidraria Santa Marina, como foi noticiado pelo jornal Diário Popular do dia 12/09/1909;

(...) 1º Continuar greve até que sejam satisfeitas as suas reclamações, e dadas as inteiras satisfações sobre as offensas soffridas pelos grévistas na intervenssão da policia, solicitada pelo gerente que deverá ser demitido immediatamente.

2º Telegrafar às Federações de Vidreiros da França, Allemanha, Italia e Argentina, pedindo evitar o embarque dos operarios para S. Paulo.

3º Publicar um manifesto aos operarios do Brasil, insitando-os à “boycottar” os productos da Cervejaria Antarctica, os Theatros Polyteama Colombo, o Bosque da Saude e o Parque Antarctica, de que são maiores acionistas os proprietários da Vidraria Santa Marina bem assim todas as casas de negócios que venderem productos da Companhia Antarctica (...).3


Como se observa pelo trecho da notícia acima, os trabalhadores estavam, muito bem organizados e conscientes do que queriam. Esse movimento serve para exemplificar, que os movimentos anteriores aos de 1917 em diante, “rotulados” pela historiografia tradicional como marco histórico da luta da classe operária são movimentos que já possuíam, uma organização e conscientização, e que não devem ser vistos como uma mera infância do movimento operário no Brasil, como a historiografia tradicional coloca. E além disto, a luta da classe operária não deve ser vista somente como uma vinculação a partidos, como mais uma vez é posto pela historiografia tradicional e criticada, pelos autores Paulo Sérgio Pinheiro e Michael M. Hall, que colocam que;

(...) a redução partidária da história da classe operária no Brasil pretendeu (e ainda) pretende fazer crer que tudo quanto ocorreu antes de 1920 consistiria quando muito, a infância da classe operária. Nessa vertente historiográfica, quem dá sentido à classe é o partido. E como tal

3 Ainda a greve – Na Vidraria Santa Marina – resoluções dos grevistas – pequenas notas. Diário Popular. São Paulo. 12 set. 1909, p. 2.

interpretação precisa enfatizar o nível institucional, tende a não aprofundar o conhecimento anterior a classe(...).4


Voltando à discussão da greve da Vidraria Santa Marina, os vidreiros devido à forte repressão a qual estavam submetidos, passaram a ganhar apoio ao movimento, pois no dia 18/10/1909 o jornal “O Commércio de São Paulo” publicou a seguinte notícia;

Ao que consta uma comissão composta de representantes das associações liberais, estudantes e operários, vae convocar um comício para a próxima quinta-feira, a fim de protestar contra as medidas da autoridade policial em relação aos grevistas da Vidraria Santa Marina.

Nesse sentido serão lidas duas representações, com muitas assignaturas ao srs. Presidente do Estado e da República, pedindo a sua intervenção de acordo com o art. 6 nº 4 da Constituição Federal.5


Além desse comício criticando a ação da força policial, jornais como “O Commércio de São Paulo” e “Diário Popular”, passaram também a fazer críticas, a repressão que estava sendo efetuada contra o movimento grevista da Vidraria Santa Marina. A greve na Vidraria Santa Marina chegou ao seu final no dia 21/10/1909, com a volta de alguns vidreiros ao trabalho sem que suas reivindicações fossem atendidas. Dentre os trabalhadores da fábrica Santa Marina, 40 operários foram demitidos por serem apontados como líderes do movimento.

3 Cooperativa dos Vidreiros


Embora a greve na Vidraria Santa Marina tenha terminado sem que os operários tivessem, suas reivindicações atendidas e com a demissão de 40 vidreiros, ela não pode ser vista como um movimento fracassado, pois foi durante esta greve, que se originou a idéia da construção da Cooperativa dos Vidreiros na região de Osasco.

No começo deste texto disse, que esse movimento grevista e os rumos que ele tomou, ou seja, a construção da Cooperativa dos Vidreiros na região de Osasco, não pode ser visto como um movimento anarquista, como afirmou a autora Helena Pignatari Werner. Isso porque, de acordo com a pesquisa feita, tudo leva a crer que esse movimento era



PINHEIRO, Paulo Sérgio, HALL, Michael M., A classe operária no Brasil 1889- 1930: Documentos Vol. II. São Paulo: Brasiliense. 1981, p. 10.
5 Factos diversos – Ecos da Greve. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 18 out. 1909, p. 1.


socialista, isto porque, a Vidraria Santa Marina já possuía um histórico de greves com apoio socialista como afirma o autor Franco Cenni: A Liga Democrática Italiana se transformou, então em um circulo socialista e, passando da teoria a ação, com o intuito de chamar a atenção para os problemas que afligiam as massas operárias em contínuo aumento, entre 1900 e 1903 foram deflagradas as primeiras greves na Vidraria Santa Marina (cujos os operários eram quase todos italianos e franceses) e nas fábricas de tecidos Anhaia e Penteado. Foram esses os primeiros movimentos operários a abalar a cidade de São Paulo.6

Além deste, autor dar indícios de que os trabalhadores da Vidraria Santa Marina seguiam as bases ideológicas socialistas, o movimento grevista de 1909 recebeu o apoio, do Centro Socialista de Campinas, como menciona o jornal “O Commércio de São Paulo do dia 22/09/1909;“(...) O Centro Socialista de Campinas resolveu votar uma moção de solidariedade para com os operarios grévistas de São Paulo e protestar contra attitude da policia.”7

Como se observa têm-se mais um ponto em que se pode deduzir, que esse movimento grevista da Vidraria Santa Marina era socialista e não anarquista, como a historiografia tradicional chegou a considerá-lo.

Ainda com relação a esta questão do movimento grevista ser socialista, tem-se mais uma informação que pode contribuir para esta conclusão, que é o fato de Edmondo Rossoni, apontado pela autora Helena Pignatari Werner como sendo líder do movimento, Ter-se declarado antes de ser expulso do país, como sendo um seguidor dos princípios socialista, chegando a afirma para o jornais do período que não era anarquista e sim socialista;

A policia nada dizia – instaurava apressadamente um processo contra Rossoni, ouvindo pessoas suspeitas – o pessoal da fabrica. As testemunhas affirmam Ter Rossoni provocado a gréve, dizendo mesmo que o professor era anarchista e condemnado na Italia, como tal Rossoni não negou que fora condemnado á revelia por Ter escripto artigos antimilitaristas. Disse ainda não ser anarchista, mais sim socialista.8



6 CENNI, Franco. Italianos no Brasil : Andiamo in’Mérica. São Paulo: Edusp. 2003, p. 361-362.
7 Factos Diversos – A greve – volta dos vidreiros ao trabalho – depósitos de salários – Centro Socialista de Campinas. O Commércio de São Paulo. São Paulo 22 set. 1909, p. 3.
8 A prisão de Rossoni – seu embarque para o Rio – processo policial. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 25 nov. 1909, p.3.


Como se observa, tudo indica que o movimento grevista da Vidraria Santa Marina era socialista, e não anarquista como a autora Helena Pignatari afirmou.

A Cooperativa dos Vidreiros veio para Osasco, seguindo a autora Helena Pignatari, porque a região possuía alguns atrativos que possibilitariam o sucesso do empreendimento, pois para Helena;

Osasco apresentava uma série de vantagens: a grande maioria dos fabricantes era composta por italianos; a região começava a se desenvolver; o dono das terras Antônio Agu, procurava atrair mão-de obra para a região, que já contava com uma cerâmica construída por Antônio Agu em sociedade com o Barão Sensaud de Lavaud, uma fábrica de papéis do Sr. Narciso Sturlini, conhecida como fábrica de Carteiras (corruptela de carteiras do italiano); o Frigorífico Wilson; uma fábrica de fósforo (Granada), várias olarias e talvez o elemento mais sedutor – excelente areia nas margens do rio Tietê, que seria a matéria prima para a vidraria dos operários.9


Como se nota Osasco possuía muita coisa a seu favor para a escolha dos vidreiros. Além disto, também possuía um enorme número de imigrantes italianos na região, que receberiam bem seus patrícios.

A construção da Cooperativa dos Vidreiros moveu várias categorias de trabalhadores, que se propuseram a trabalhar na realização da Cooperativa, tanto é, que no dia 05/01/1910, o jornal “Diário Popular” publicou uma matéria, na qual a sociedade da Cooperativa estava firmada;

Está definitivamente constituida a sociedade Cooperativa Vidraria Osasco, que vae montar na florescente povoação que lhe deu o nome uma vidraria para a fabricação de garrafas.

A directoria da sociedade já foi eleita em assemblea geral dos sócios realisada no dia 2 do corrente, e os estatutos da cooperativa, de acordo com a lei, vão ser depositados na junta comercial.

A nova Vidraria, onde vão trabalhar os ex-operarios da Vidraria Santa Marina poderá começar a trabalhar dentro de quatro mezes.10


Embora tenha sido firmada a sociedade, a Cooperativa de Osasco nunca chegou a funcionar, pois segundo a autora Helena, quando esta estava próxima de entrar em funcionamento, faltando somente alguns equipamentos para dar início à produção, o advogado Morroni, encarregado da legalização da Cooperativa teria fugido com toda a



9WERNER, Helena Pignatari. Raízes do movimento operário em Osasco. São Paulo: Cortez, 1981, p. 51.
10 Noticiário – Vidraria Osasco. Diário Popular. São Paulo. 05 jan. 1910, p.1.


documentação e com o dinheiro da Cooperativa, a mando do Conselheiro Antônio Prado pondo fim, desta forma ao sonho dos vidreiros.

Com relação à Cooperativa dos Vidreiros têm-se algumas questões que não ficaram muito claras no trabalho da autora Helena Pignatari, e que merecem ser mencionadas neste artigo.

No começo deste texto é citado, que a Cooperativa dos Vidreiros “teoricamente” seria administrada pelos trabalhadores, como não chegou a entrar em funcionamento nunca saberemos se de fato isso realmente iria acontecer, isso porque a Cooperativa recebeu investimentos de capitalistas do período interessados em acabar com o monopólio exercido pela Vidraria Santa Marina. Uma vez que fora investido capital no empreendimento, talvez os capitalistas quisessem fazer parte da administração da Cooperativa, porém, isto é só uma hipótese que precisa ser melhor trabalhada.

Outro fator que merece ser ressaltado aqui é a participação do professor Edmondo Rossoni neste movimento. Não se pretende negar a participação dele no movimento grevista, e sim chamar a atenção para o fato de que a autora Helena Pignatari coloca, que Rossoni esteve envolvido, na construção da Cooperativa junto com os operários até o fim do sonho dos vidreiros.

Porém, tal afirmação merece ser questionada, pois segundo as fontes pesquisadas, Edmondo Rossoni, já no final do ano de 1909 não se encontrava mais no Brasil, como pode ser verificado pela notícia do jornal “O Commércio de São Paulo” do dia 25/11/1909; “Está o fato consummado: - Rossoni foi preso hontem pela manhã e hontem mesmo embarcado para o Rio de Janeiro onde a bordo de um paquete francez, seguirá para a França(...)”11 ; logo se tal embarque realmente aconteceu, Rossoni não poderia estar junto com os operários no ano de 1910, como afirma a autora Helena Pignatari.

Uma outra questão que ainda deve ser mencionada aqui neste texto é o fato da autora insistir, em afirmar que Sérgio Gallafrio teria ido a Europa comprar equipamentos, para que a Cooperativa pudesse entrar em funcionamento, mesmo com suas fontes orais desmentindo tal fato, a autora desconsiderou esta informação;



11 A pisão de Rossoni – seu embarque para o Rio – o processo policial. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 25 nov. 1909, p. 3.

Helena- Eu soube... eu soube que um dos vidreiros foi para a Itália ou para Europa, não sei que lugar, ele ia buscar... ia comprar uma máquina, ia comprar um forno. Que ele ia comprar? Quem estava em Osasco e foi para a Europa comprar o que?

Matilde – Eu não me lembro.

Helena – Não lembra que foi comprar. Foi o Gallafrio?

Enedina – Não, Gallafrio não.

Matilde – Não, isso não. Foi outro, decerto foi outro porque...

Stela – Não era o Rosoni que foi pra comprar coisas?

Matilde – Não (...).12

Quando um dos representantes dos operários, Sérgio Gallafrio, foi mandado para a Europa a fim de encomendar o forno para a Vidraria dos Operários, a direção da Santa Marina deve Ter tremido nas bases, pois o desafio dos vidreiros era algo insuportável para os donos do monopólio de São Paulo.13


Como se observar, analisando as duas transcrições referentes a Sérgio Gallafrio, a autora desconsiderou a versão dada pelas entrevistadas. Porém, de acordo com a pesquisa efetuada, tudo leva a crer que possivelmente, as entrevistadas tivessem razão, ao afirmarem que Gallafrio não foi para a Europa, pois segundo o jornal “O Commércio de São Paulo” do dia 05/10/1909, tal atitude talvez fosse desnecessária; “Vários industriaes subscreveram um bom número de acções, devendo ser previamente iniciado os trabalhos da construcção dos fornos, sobre a direção do forneiro Bessozzi, que a Federação Italiana poz a disposição dos operarios.”14.

Como se observa em relação à Cooperativa dos Vidreiros e a análise apontada pela autora Helena Pignatari têm-se muitas questões em aberto, que abre a possibilidade para uma outra pesquisa em relação a este tema. Porém, não se deve esquecer que esse movimento grevista e a construção da Cooperativa dos Vidreiros em Osasco fazem parte, da luta da classe operária da Primeira República, e são movimentos como estes que deram bases para que, posteriormente movimentos como os de 1917, 1919 em diante pudessem ocorrer. São movimentos que não devem ser excluídos da história, como a historiografia tradicional acaba fazendo, colocando-os como movimentos infantis, sem organização e sem



12 WERNER, Helena Pignatari. Raízes do movimento operário em Osasco. São Paulo: Cortez. 1981, p . 94.
13 Idem, p. 54
. 14 Factos diversos – Ecos da Greve. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 05 out. 1909, p. 3.


conscientização. Pois, como o leitor pode perceber, através deste artigo, o movimento de 1909 possuía uma organização e uma conscientização.

Além disto, não se deve acreditar, que o fim da Cooperativa dos Vidreiros foi um fracasso destes trabalhadores, pois mesmo que a Cooperativa não tenha dado certo ou mesmo que tenha recebido investimentos da classe dominante do período, só a realização e a construção de uma Cooperativa para um período em que a luta da classe operária era vista como caso de policia, a construção desta Cooperativa neste período pode ser vista como uma “vitória” da classe trabalhadora. Até porque, essa Cooperativa uniu vários segmentos da sociedade e várias categorias de trabalhadores para que ela se realizasse.

Conclusão


Como o leitor pode perceber este artigo traz à tona um movimento que ocorreu na Primeira República, momento em que imperava a repressão sobre os movimentos grevistas. Este movimento conseguiu apesar disto, vencer as dificuldades e conquistar vitórias para a classe trabalhadora, além de passar para a história.

Embora tenha sido rotulado de movimento anarquista pela historiografia tradicional, como foi observado ao longo deste texto, tudo indica que este movimento teve suas bases ideológicas ligadas ao socialismo.

E é preciso ressaltar que estes trabalhadores conseguiram uma grande vitória quando tiveram a idéia de construir uma cooperativa, mesmo que esta não tenha entrado em funcionamento e mesmo que não saibamos se ela seria realmente administrada por operários; porém, só o fato desta idéia ter sido colocada em prática já mostra a força que este movimento possuiu.

É necessário ressaltar a importância que se tem de resgatar movimentos como este, não só para a história da luta da classe operária, como também pela importância que movimentos como estes têm para a história regional, abrindo novas perspectivas para futuras pesquisas.

Licenciada e Bacharel em História

Professora da Rede Pública do Estado de São Paulo


Referências Bibliográfica


CENNI, Fanco. Italianos no Brasil: “Andiamo in’ Mérica. São Paulo: edusp. 2003.

PINHEIRO, Paulo Sérgio e HALL, Michael M.. A classe operária no Brasil 1889-1930: Documentos vol. II. São Paulo: Brasiliense. 1981.

WERNER, Helena Pignatari. Raízes do movimento operário em Osasco. São Paulo: Cortez. 1981.Periódicos


Periódicos

Na Vidraria Santa Marina – os pedreiros – outros empreiteiros que aceitaram as condições impostas pelos grevistas. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 11 set. 1909, p. 3.

Ainda greve na Vidraria Santa Marina – resoluções dos grevistas – pequenas notas. Diário Popular. São Paulo. 12 set. 1909, p. 2.

Factos diversos – A greve – voltas dos vidreiros ao trabalho – depositos de salarios – Centros Socialista de Campinas. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 22 set. 1909, p.3.

Factos diversos – ecos da greve. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 05 out. 1909, p.3.

Factos diversos – ecos da greve. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 18 out. 1909, p.1.

A prisão de Rossoni – seu embarque para Rio – processo policial. O Commércio de São Paulo. São Paulo. 25 nov. 1909, p. 3.

Noticiário – Vidraria Osasco. Diário Popular. São Paulo. 05 jan. 1910, p.1.


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